Plymouth (EUA) – 7 de janeiro de 2026: Em uma reunião que se estendeu por mais de quatro horas e dividiu opiniões entre os moradores, o Select Board de Plymouth, cidade histórica de Massachusetts, votou por unanimidade adotar uma política que espelha a já existente no departamento de polícia local, proibindo os agentes de cumprir mandados civis de detenção imigratória. A decisão rejeitou uma proposta mais ampla de “cidade-santuário”, apresentada pelo selectman Kevin Canty, que visava impedir qualquer cooperação entre funcionários municipais e a agência federal de imigração (ICE).
A proposta de Canty, intitulada “Uma Política Projetada para Proteger a Confiança Pública em Todos os Funcionários Municipais para Todos os Residentes”, pretendia vetar que policiais, autoridades e empregados da cidade colaborassem ou comunicassem com a ICE sobre o status imigratório de indivíduos, além de proibi-los de exercer funções de agentes federais de imigração.
Durante o debate, Canty defendeu sua iniciativa argumentando que as práticas recentes de fiscalização imigratória federal geraram medo na comunidade. “A forma como a aplicação da lei imigratória federal tem se conduzido em nossa comunidade deixou residentes assustados e temerosos”, afirmou. Para ele, a prioridade das forças locais deve permanecer focada nos assuntos de Plymouth, sem se envolver na execução de políticas federais de imigração.
O chefe de polícia Dana Flynn, no entanto, sustentou que a política departamental, implementada em 2017 e baseada em lei estadual que proíbe policiais de Massachusetts de cumprir detentores civis de imigração, já é suficiente e não seria alterada por decisão do Select Board. Flynn alertou que algumas cláusulas da proposta de Canty poderiam conflitar com a cooperação existente entre sua equipe e a ICE em investigações criminais não relacionadas à imigração.
A reunião, realizada na terça-feira anterior, atraiu dezenas de moradores e foi marcada por críticas à condução do debate. O residente Tim Lawler classificou o encontro como “perda de tempo”, atribuindo-o a uma “agenda pessoal” de Canty para confrontar o governo federal, e defendeu que o conselho deveria priorizar questões como o orçamento municipal.
Hunter Young, presidente do comitê republicano local, acusou Canty de “sinalização de virtude”, sugerindo que o selectman poderia ter dialogado previamente com o chefe de polícia antes de apresentar a proposta.
Do outro lado, apoiadores como Jason Platt e Kristen Thomas defenderam uma política municipal mais explícita. Thomas descreveu um clima de medo generalizado: “Nunca vi esse nível de temor em nossa comunidade. Seja documentado ou não, cidadão americano ou imigrante, o medo é o mesmo. Pessoas de pele negra ou morena, ou com sotaque, sentem-se alvos. Pais hesitam em mandar filhos à escola; há receio de ir ao trabalho, à igreja ou ao supermercado”.
Ao final, o Select Board optou por adotar a política já em vigor na polícia, com revisão anual e obrigação de o chefe Flynn notificar o conselho sobre eventuais mudanças na relação com a ICE. “Alguns podem dizer que foi perda de tempo, mas somos o corpo político da cidade. Apoio a moção e o caminho que trilhamos para chegar até ela”, declarou o selectman William Keohan.
Plymouth, sede do condado homônimo, abriga o escritório do xerife local, que mantém o único acordo restante no estado com a ICE para detenção de imigrantes – embora o programa 287(g), que delegava funções imigratórias a funcionários locais, tenha sido encerrado em anos anteriores.
A decisão reflete o delicado equilíbrio entre leis estaduais restritivas à cooperação com a imigração federal e as demandas comunitárias por maior proteção a residentes imigrantes, em um contexto nacional de debates intensos sobre o tema.


