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A aprovação de vistos nos Estados Unidos registrou queda expressiva desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025, com o Brasil emergindo como um dos casos mais emblemáticos do impacto das políticas restritivas adotadas pela administração republicana. Dados preliminares do Departamento de Estado americano, analisados por veículos como Folha de S.Paulo e reportagens internacionais, revelam que o país, líder mundial em emissões de vistos de turismo e negócios (B1/B2) em 2023 e 2024, sofreu a maior redução absoluta nessa categoria nos primeiros meses do novo governo.
Entre janeiro e maio de 2025 — período inicial sob Trump —, foram emitidos cerca de 358 mil vistos B1/B2 para brasileiros, contra 482 mil no mesmo intervalo de 2024, o que representa uma queda de 25,7%. Essa foi a maior diminuição global em números absolutos para vistos de turismo e negócios, fazendo o Brasil perder a liderança para nações como Índia e China. A retração reflete não apenas maior rigor consular — com exigência de verificação de redes sociais, pausas em agendamentos e atrasos em processamento —, mas também um efeito dissuasório: a retórica anti-imigração e a percepção de maior risco de recusa desestimularam muitos potenciais solicitantes.
Apesar da redução no volume, a taxa de aprovação para brasileiros em B1/B2 melhorou ligeiramente ao longo de 2025, caindo de 15,4% de recusa em 2024 para 14,8% no ano fiscal completo, indicando que o processo se tornou mais seletivo, mas não necessariamente mais hostil a perfis qualificados. A tendência se alinha à queda geral de 11% (cerca de 250 mil vistos a menos) em emissões permanentes e temporárias entre janeiro e agosto de 2025, conforme análise do The Washington Post.
Outros países também sentiram o peso das medidas. As maiores perdas absolutas ocorreram entre cidadãos da Índia e da China, que juntos registraram cerca de 84 mil vistos a menos, principalmente em categorias de estudantes internacionais e trabalhadores qualificados (H-1B e F-1). A emissão de green cards (residência permanente) caiu de forma acentuada em vistos para trabalhadores, familiares e, de modo notável, para iraquianos e afegãos que colaboraram com forças americanas. Filipinas e Vietnã tiveram 10 mil vistos a menos no período.
Globalmente, vistos de negócios e turismo (B1/B2) recuaram em cerca de 200 mil unidades, equivalente a 3,4%. O Departamento de Estado suspendeu temporariamente entrevistas para vistos de estudante e intercâmbio, além de implementar escrutínio intensivo em contas de redes sociais para todos os solicitantes, ampliando tempos de espera e incertezas.
Embora não haja números definitivos sobre quanto as políticas e a retórica de Trump reduziram o volume de aplicações, especialistas avaliam que o discurso presidencial e o clima de maior fiscalização atuaram como barreiras adicionais. A porta-voz da Casa Branca, Abigail Jackson, defendeu as ações em nota oficial: “O presidente Trump foi eleito com um mandato claro para colocar os cidadãos americanos em primeiro lugar”. Entidades como a Federation for American Immigration Reform (Fair) argumentam que limitar vistos protege o mercado de trabalho e o sistema educacional nacional.
O declínio na emissão de vistos soma-se a um quadro mais amplo de retração migratória nos EUA em 2025. Pela primeira vez em meio século, mais imigrantes deixaram o país do que entraram, segundo estimativas do Brookings Institution, com migração líquida negativa entre -10 mil e -295 mil pessoas no ano passado — resultado de barreiras legais mais altas, aumento de deportações e saídas voluntárias.
Essa tendência pode gerar consequências econômicas indesejadas. O chairman do Federal Reserve, Jerome H. Powell, destacou recentemente que a redução no fluxo de imigrantes contribuiu para um ritmo mais fraco de criação de empregos nos últimos meses, em meio a pressões inflacionárias e desaceleração em setores dependentes de mão de obra estrangeira, como tecnologia, saúde e serviços.
A administração mantém o foco em segurança nacional e autossuficiência dos imigrantes, mas os números revelam o custo da agenda restritiva: menos entradas legais, impacto em indústrias que contam com talento global e sinais de que a política migratória começa a pesar sobre o crescimento econômico. No caso brasileiro, a queda inicial em 2025 prenuncia desafios adicionais, com suspensões posteriores em vistos imigrantes a partir de 2026, embora os de turismo e negócios continuem processados.


