JUNOT
Em meio aos debates contemporâneos sobre imigração e lealdade cívica nos Estados Unidos, observa-se um padrão recorrente e digno de exame sereno. Políticos eleitos de destaque — a congressista Ilhan Omar, nascida na Somália e naturalizada americana; Zohran Mamdani, prefeito de Nova York desde janeiro de 2026, de origem ugandense; Alexandria Ocasio-Cortez, de ascendência porto-riquenha; e figuras afins como Rashida Tlaib — participam de protestos de rua e pronunciamentos públicos onde bandeiras estrangeiras (mexicanas, palestinas, somalis ou mesmo iranianas) são agitadas com visível entusiasmo, enquanto a bandeira americana é, por vezes, queimada ou ignorada. Movimentos organizados em campus universitários e capitais como Nova York e Los Angeles incluem manifestações que expressam solidariedade explícita ao regime iraniano ou a grupos designados como terroristas por sucessivos governos americanos — Hezbollah, Hamas, Houthis — especialmente após os recentes ataques militares conjuntos EUA-Israel contra instalações nucleares e militares do Irã em fevereiro de 2026.
Esses atos, vale registrar, ocorrem sob o manto protetor da Primeira Emenda. A democracia americana, com sua generosidade histórica, tolera o discurso mais radical: permite que imigrantes ou seus descendentes usem a liberdade de expressão para condenar o “imperialismo ianque”, o “genocídio em Gaza” ou as “políticas fascistas” de deportação, tudo em nome de um pluralismo que, supostamente, enriquece a nação. Até aqui, os fatos são claros e os direitos, indiscutíveis.
Porém, quando se olha com honestidade intelectual para o que está sendo defendido, o quadro se torna inquietante. Esses mesmos atores políticos e movimentos não pedem apenas reforma ou correção de rumos; eles empregam a liberdade americana como arma para desmantelar os alicerces dessa mesma liberdade. Defendem, muitas vezes abertamente, modelos de sociedade que já provaram seu fracasso trágico: o Irã dos aiatolás, onde mulheres são açoitadas por não usar o véu e homossexuais são enforcados em guindastes; o Afeganistão talibã, onde meninas são proibidas de estudar e o “líder tribal” decide o destino de cada vida com base em uma interpretação medieval do Corão. O que se propõe, sob o disfarce de “resistência” e “justiça social”, é importar para solo americano os mesmos mecanismos de opressão teocrática, tribal e homicida que milhões de imigrantes fugiram — e que, paradoxalmente, agora são romantizados como “culturas autênticas” dignas de proteção.
Aqui entra o paradoxo da tolerância, brilhantemente diagnosticado por Karl Popper: “A tolerância ilimitada deve levar ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada mesmo àqueles que são intolerantes, se não estivermos preparados para defender uma sociedade tolerante contra o ataque dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos, e com eles a tolerância.”
Popper não defende a censura preventiva de toda ideia incômoda; ao contrário, afirma que devemos primeiro combater filosofias intolerantes com argumentos racionais e pela força da opinião pública. Mas ele reivindica, em nome da própria tolerância, o direito de não tolerar o intolerante quando este abandona o debate racional, proíbe seus seguidores de ouvir argumentos contrários e responde com violência, intimidação ou “punhos e pistolas”. Nesse ponto, a supressão — proporcional e necessária — deixa de ser atentado à liberdade e passa a ser sua defesa última.
A contradição se revela em toda a sua feiura moral: a tolerância democrática é invocada para proteger discursos que, se triunfassem, aboliriam a própria tolerância. Quando o discurso tolerado advoga explicitamente pela substituição da república liberal por um regime teocrático ou autoritário, a tolerância deixa de ser virtude e passa a ser cumplicidade com o próprio fim da liberdade. O silêncio ou o aplauso de grande parte da elite progressista — universidades, mídia, corporações — apenas acelera o processo. Eles invocam a Primeira Emenda como escudo absoluto, mas esquecem que a democracia não é um suicídio assistido: ela tem o direito — e o dever — de se defender contra quem a usa para erigir um sistema onde tal defesa se torne impossível.
Fazer essa crítica reflexiva, portanto, exige hoje um raro ato de coragem intelectual. Porque as vozes mais exaltadas — aquelas que dominam os microfones das redes sociais, dos campi e de certos corredores do Congresso — responderão de imediato com o rótulo previsível: “xenofobia”. Dirão que questionar a lealdade dividida de quem agita a bandeira do Irã ou do Hamas enquanto ocupa cargo público americano é ódio a estrangeiros, racismo disfarçado, supremacia branca. É o truque retórico mais antigo e mais eficaz da esquerda identitária: transformar qualquer exame sério das consequências culturais e civis da imigração em pecado moral imperdoável.
Mas o verdadeiro xenófobo não é aquele que aponta o perigo; é aquele que, por medo de ser chamado de intolerante, entrega sua própria civilização de bandeja. A coragem, neste momento, consiste exatamente em dizer o óbvio: nem toda cultura é compatível com a república liberal, nem todo imigrante vem disposto a abraçá-la. E ignorar essa realidade não é compaixão. É covardia disfarçada de virtude.


