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GAVIÃO PEIXOTO (SP) – O Brasil ingressou, nesta quarta-feira (25), no seleto grupo de nações capazes de montar caças supersônicos de última geração. No aeródromo da Embraer em Gavião Peixoto, interior paulista, foi apresentado o primeiro F-39E Gripen produzido localmente, com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de altas autoridades civis e militares. A aeronave, de matrícula FAB 4109, representa o amadurecimento do Programa FX-2 e consolida a transferência de tecnologia sueca para a indústria brasileira.
Dos 36 caças Gripen E/F contratados pela Força Aérea Brasileira (FAB) em 2014, 15 serão montados pela Embraer em Gavião Peixoto – o único centro de produção do modelo fora da Suécia. Equipado com radar AESA Raven ES-05, sistema de busca e rastreamento infravermelho (IRST) Skyward-G, suíte de guerra eletrônica Arexis de alta capacidade e motor GE F414-GE-39E de maior potência, o F-39E é um caça multimissão de 4,5ª geração projetado para superioridade aérea, ataque ao solo, reconhecimento e operações em ambientes contestados. Pode carregar até dez pontos duros de armamento, incluindo mísseis ar-ar Meteor de longo alcance (ramjet, alcance superior a 100 km) e IRIS-T de curto alcance, além de bombas guiadas e mísseis antinavio.
No contexto regional, o F-39E coloca o Brasil em posição de clara superioridade aérea na América do Sul. Enquanto vizinhos como Venezuela ainda operam Su-30MK2 de origem russa (caças pesados de 4ª geração com bom desempenho cinemático, mas sensores e aviônicos mais antigos), Argentina mantém uma frota envelhecida de A-4 Skyhawk e Mirage sem modernização significativa, e Chile voa F-16MLU de gerações anteriores, o Gripen brasileiro destaca-se pela integração de sensores avançados, baixa assinatura radar relativa, capacidade de operação a partir de pistas curtas ou rodovias e, sobretudo, pelo baixo custo operacional – estimado em cerca de um terço do de caças equivalentes. Nenhum outro país da região possui, hoje, um caça com radar AESA nativo, fusão de sensores e mísseis como o Meteor.
Em comparação com o F-16 Block 70/72 Viper, a versão mais moderna em serviço na Força Aérea dos Estados Unidos e exportada a diversos aliados, o Gripen E apresenta características distintas. Ambos são caças single-engine de 4,5ª geração com radar AESA, mas o F-16 Viper oferece maior carga útil máxima (cerca de 7,7 toneladas contra aproximadamente 7 toneladas do Gripen) e uma razão empuxo-peso ligeiramente superior em certas configurações, graças ao motor F110-GE-129 de maior empuxo. O Viper também se beneficia de décadas de atualizações e vasta rede logística global. No entanto, o Gripen E compensa com maior autonomia em missões ar-ar (alcance de combate superior em alguns perfis), excelente agilidade graças ao desenho canard-delta, capacidade de decolagem e pouso em pistas improvisadas, e custos de manutenção e operação significativamente mais baixos – Saab estima que um esquadrão de Gripen exige cerca de metade do pessoal de suporte necessário para um de F-16. Além disso, o Gripen incorpora arquitetura aberta de software, facilitando atualizações rápidas e independência tecnológica, aspecto central para o Brasil.
Diante de outros caças modernos de sua geração, como o Dassault Rafale (França) e o Eurofighter Typhoon (Reino Unido, Alemanha, Itália e Espanha), o F-39E posiciona-se como uma opção leve e altamente custo-efetiva. O Rafale e o Typhoon, ambos bimotores, apresentam maior velocidade sustentada, maior raio de combate e capacidade de supercruise em certos regimes, além de cargas bélicas maiores. São plataformas mais pesadas e caras, ideais para potências que priorizam projeção de força em teatros distantes. O Gripen, por sua vez, prioriza sobrevivibilidade em cenários de alta ameaça por meio de guerra eletrônica avançada, sensores passivos e dispersão operacional – doutrina sueca que se alinha bem às vastas dimensões territoriais brasileiras. Não possui a furtividade de quinta geração do F-35 Lightning II, mas oferece desempenho comparável em missões convencionais a um custo muito inferior, tornando-o atrativo para nações médias.
O rollout do FAB 4109 não é apenas um evento simbólico. Ele materializa o salto da indústria de defesa nacional, gera centenas de empregos qualificados e abre caminho para futuras exportações e evoluções tecnológicas, possivelmente incluindo versões com maior autonomia ou integração com drones. A FAB deverá receber a aeronave ainda neste trimestre, iniciando a substituição gradual dos F-5M Tiger II e ampliando a dissuasão estratégica do país.
Com este marco, o Brasil reforça sua posição como ator relevante no cenário global de defesa, demonstrando que é possível combinar soberania tecnológica, eficiência operacional e integração regional sem abrir mão de capacidades de ponta.


