Eliana Pereira Ignacio
Olá meus caros leitores, hoje escrevo para encerrar — ou talvez selar com cuidado — uma travessia que muitos de nós percorremos nos últimos meses: a travessia entre o passado que pesa, o futuro que promete e o presente que, tantas vezes, é negligenciado. Falamos de paz, falamos sobre deixar ir, falamos sobre chorar o que precisa ser chorado antes de soltar. Agora, chegamos a um ponto mais silencioso, porém decisivo: quando o presente deixa de ser espera e se torna morada. Vivemos em uma cultura emocionalmente orientada para o “depois”. Depois que eu melhorar, depois que a dor passar, depois que tudo fizer sentido.
O presente, nesse contexto, é tratado como um corredor — um espaço de passagem desconfortável que precisa ser atravessado o mais rápido possível. Psicologicamente, isso nos mantém em constante estado de antecipação ou ruminação: ou presos ao que foi, ou ansiosos pelo que ainda não chegou. Raramente estamos, de fato, aqui. Do ponto de vista psicológico, essa dificuldade em habitar o presente não é falta de força de vontade. Ela é, muitas vezes, um mecanismo de proteção.
O presente exige contato direto com aquilo que sentimos agora — e nem sempre o agora é confortável. Ele pode ser simples demais para quem se acostumou ao caos. Pode ser silencioso demais para quem viveu muito tempo em alerta. Pode ser imperfeito demais para quem aprendeu a medir a própria vida por expectativas idealizadas. É por isso que tantas pessoas, mesmo após decisões importantes de mudança, sentem um estranho vazio.
Elas soltaram o passado, mas ainda não aprenderam a viver o presente. Encerraram ciclos, mas continuam emocionalmente em suspensão. Como se a vida estivesse sempre prestes a começar, mas nunca começasse de fato. Na clínica psicológica, observamos com frequência que o sofrimento não está apenas nos eventos traumáticos do passado, mas na incapacidade de integrar esses eventos ao presente de forma saudável. O luto, não é sobre esquecer, mas sobre reorganizar internamente a experiência para que ela não ocupe o lugar do agora (Worden, 2009).
Quando isso não acontece, o presente se transforma em espera: espera de alívio, de reparação, de sentido. Habitar o presente, portanto, não é um exercício de positividade forçada. É um movimento de aceitação ativa. Significa reconhecer: “É aqui que estou, com o que tenho, com quem sou agora”. Essa postura está profundamente alinhada com abordagens psicológicas contemporâneas, como o mindfulness clínico e as terapias baseadas em aceitação, que mostram que a redução do sofrimento não vem do controle absoluto das experiências internas, mas da mudança na relação que estabelecemos com elas (Kabat-Zinn, 1994; Hayes et al., 2012). Mas há algo ainda mais profundo quando olhamos para essa questão sob uma perspectiva espiritual madura.
A fé, quando integrada à saúde emocional, também nos convida a sair da espera crônica. Uma fé infantil vive apenas de promessas futuras ou de lembranças idealizadas do passado. Já a fé amadurecida aprende a reconhecer Deus, sentido e propósito no agora — mesmo quando o agora ainda é simples, silencioso ou imperfeito.
O presente também é um lugar de fé. Isso é especialmente importante porque muitas pessoas espiritualizadas, sem perceber, usam a fé como uma forma sofisticada de evitação emocional. Esperam que Deus resolva, cure ou transforme, enquanto se ausentam do próprio processo interno. No entanto, do ponto de vista psicológico e espiritual, a transformação não acontece fora do tempo presente. É no agora que se escolhe responder diferente, sentir diferente, permanecer diferente. Transformar o presente em morada não significa que tudo esteja resolvido. Significa que você parou de viver como hóspede da própria vida. Significa que, mesmo com perguntas sem resposta, você decidiu permanecer.
Permanecer no corpo, nas emoções, nas escolhas pequenas e cotidianas. Permanecer sem a pressa de “chegar lá”. Esse é um ponto delicado, porque muitos confundem permanência com estagnação. Não são a mesma coisa. Permanecer no presente não é desistir de crescer; é crescer sem fugir. É compreender que o amadurecimento emocional não acontece apenas nos grandes marcos, mas nos dias comuns.
Nos dias em que não há grandes revelações, mas há constância. Nos dias em que a fé não se manifesta como entusiasmo, mas como confiança silenciosa. Quando o presente se torna morada, algo importante muda: a ansiedade diminui porque não é mais necessário antecipar tudo; a culpa diminui porque o passado já não governa; e a esperança se torna mais realista, menos fantasiosa.
Não é uma esperança baseada em negação, mas em compromisso com o processo. Psicologicamente, isso se traduz em maior autorregulação emocional, maior tolerância à frustração e maior coerência interna. Espiritualmente, traduz-se em uma fé que não depende de sinais constantes para se sustentar. Uma fé que aprende a descansar no tempo presente, sem abandonar o futuro, mas sem ser prisioneira dele. Que possamos, então, transformar o presente em morada.
Não porque ele seja perfeito, mas porque é real. E é no real que a vida, a cura e o sentido acontecem.
Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta a cada dia o seu próprio mal. (Mateus 6:34)
Até a próxima semana
Eliana Pereira Ignacio é Psicóloga, formada pela PUC – Pontifícia Universidade Católica – com ênfase em Intervenções Psicossociais e Psicoterapêuticas no Campo da Saúde e na Área Jurídica; especializada em Dependência Química pela UNIFESP Escola Paulista de Medicina em São Paulo Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas, entre outras qualificações. Mora em Massachusetts e dá aula na Dardah University. Para interagir com Eliana envie um e-mail para epignacio_vo@hotmail.com ou info@jornaldossportsusa.com


