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Em um momento de tensão global que se reflete diretamente nas urnas americanas, o senador republicano Rand Paul, de Kentucky – um estado profundamente conservador, onde o GOP tradicionalmente domina com valores libertários e isolacionistas –, lançou um alerta contundente: as eleições de meio de mandato, as chamadas midterms, podem se transformar em um “desastre” para seu partido se o conflito armado com o Irã não for contido. Falando à apresentadora Maria Bartiromo no programa “Mornings with Maria”, da Fox Business, Paul não poupou palavras ao ligar a escalada militar a um coquetel tóxico de inflação e insatisfação popular. “Se continuarmos bombardeando o Irã e o petróleo ultrapassar os US$ 100 por barril, veremos uma eleição desastrosa”, afirmou o senador, evidenciando preocupações que vão além da retórica partidária.
O que fortalece essa visão pessimista de Paul não é mera especulação, mas um conjunto de dados concretos que pintam um quadro sombrio para os republicanos sob a presidência de Donald Trump. Primeiro, o impacto econômico imediato do conflito: os ataques conjuntos dos EUA e de Israel contra alvos iranianos, que incluíram o bloqueio temporário do Estreito de Hormuz – rota vital para o comércio global de petróleo –, impulsionaram os preços do barril de West Texas Intermediate para além dos US$ 100 na segunda-feira, embora tenha recuado para abaixo de US$ 85 na tarde de terça. Nos postos de gasolina americanos, o galão de combustível regular superou os US$ 3,50, um salto de mais de 40 centavos em uma semana e 60 centavos em um mês, segundo a AAA. Esses números não são abstratos; eles atingem o bolso do eleitor médio, especialmente em estados como Kentucky, onde a dependência de veículos é alta e a economia rural sente o peso da inflação energética.
Mas as bases para o alerta de Paul vão mais fundo, ancoradas em pesquisas que revelam uma insatisfação pré-existente com a economia sob Trump. Uma sondagem de janeiro do Pew Research Center mostrou que mais de 70% dos americanos classificam as condições econômicas como “razoáveis ou ruins”. Pior: 71% expressam “grande preocupação” com os custos de saúde, 66% com os preços de alimentos e bens de consumo, e 62% com moradia. Esses temas não surgiram com o Irã; eles já pavimentaram o caminho para vitórias democratas em eleições off-year no ano passado, injetando otimismo no partido opositor para as midterms, onde o controle da Câmara e do Senado está em jogo nos dois anos finais do mandato de Trump.
Analisando o mapa eleitoral, o relatório apartidário do Cook Political Report reforça a fragilidade republicana – outra base sólida para a opinião de Paul. Na Câmara, os democratas detêm 211 assentos (189 sólidos, oito prováveis e 14 inclinados), contra 206 dos republicanos (186 sólidos, 16 prováveis e quatro inclinados). Com 18 distritos na categoria “toss up” – dos quais 14 são atualmente republicanos –, o GOP precisa defender terreno instável para manter a maioria de 218 assentos. No Senado, onde os republicanos lideram por 53-47, 34 vagas estão em disputa, com quatro “toss ups” (duas de cada partido). Os democratas apostam alto em corridas como a do Texas, onde o deputado estadual James Talarico desafia o vencedor da primária republicana entre o senador John Cornyn e o procurador-geral Ken Paxton – um embate que pode virar o jogo em um estado tradicionalmente vermelho.
Rand Paul, com sua veia libertária que frequentemente o coloca em oposição a intervenções militares – lembremos de suas críticas ao envolvimento americano no Oriente Médio durante a era Obama e Trump –, representa uma ala do partido que prioriza o “America First” sem aventuras externas custosas. Em Kentucky, um estado conservador onde ele foi reeleito com folga em 2022, sua voz ressoa entre eleitores cansados de guerras que drenam recursos e inflamam preços. Se o conflito com o Irã persistir, elevando o custo de vida, Paul não está exagerando: os republicanos arriscam perder não só cadeiras, mas a narrativa de prosperidade que Trump tanto promove. Em política, como na geopolítica, ignorar o bolso do eleitor é receita para derrota – e os dados estão aí para provar.


