Por: Alfredo Melo
Sempre que penso no gostoso futebol de várzea, minhas memórias me levam ao campo da Rua Cintra, pedaço do antigo campo do Vila Lusitânia, que teve sua área dividida entre uma escola municipal e um campo de futebol. Times e jogadores memoráveis desfilaram pelo campo mais charmoso do bairro de Brás de Pina, na cidade do Rio de Janeiro. No campeonato de 1984, decidido entre o Robson Bar e o Castorzinho, um lance entrou para os anais do futebol de Brás de Pina.
O destaque do time do Robson Bar era Chula, um neguinho bom de bola e abusado, que adorava chutar e passar de trivela. Cobrava pênaltis e faltas no mais puro estilo “folha seca” do mestre Didi. O goleiro do Castorzinho era Dinei, criado no futsal, um dos melhores do bairro e velho conhecedor das manhas de Chula — ídolo do bairro e “deus” na favela da Maré. Durante a partida, houve um pênalti a favor do Robson Bar. Quando Chula pegou a bola e se preparou para a cobrança, Dinei falou: — Bate, bate do melhor jeito que você sabe, que mesmo assim eu vou pegar. Chula olhou para Dinei e deu um sorriso irônico.
As duas torcidas ficaram enlouquecidas com o desafio. Autorizado pelo juiz, Chula, sem tomar distância, bateu na bola com “nojo” e Dinei fez a defesa. Torcedores e jogadores do Castorzinho foram à loucura. Chula continuava parado na marca do pênalti. O juiz pediu que Dinei recolocasse a bola em jogo e, quando ele quicou a bola no chão para repor, a “bichinha” ainda estava cheia de efeito e correu mansamente para o fundo das redes. Só então Chula correu para os braços da enlouquecida turma da favela da Maré. Ainda hoje, os boleiros antigos de Brás de Pina juram que, se não fosse a cachaça, Chula teria sido melhor do que Pelé.
Bem, até que enfim o Alfredo Melo assume a verdade que nunca quis calar: ele é o Gatinho Cruel, que agora sai de cena para dar lugar ao seu criador. Enorme criatura no sentido literal, na bondade, no caráter e no conhecimento profundo do futebol e das coisas boas da vida, inclusive pratos deliciosos. Ah, tem também a paixão pelo Botafogo cada dia maior…


