
As autoridades indianas abriram uma investigação sobre o suicídio de três irmãs, viciadas na cultura coreana, depois que os pais confiscaram seus telefones celulares, informaram nesta quinta-feira (5) a polícia e a imprensa locais.
A tragédia que abalou Ghaziabad, na periferia de Nova Délhi, na Índia, na madrugada de 4 de fevereiro de 2026, expõe de forma dramática os perigos do uso excessivo e desregulado de conteúdos digitais por adolescentes. As irmãs, de 12, 14 e 16 anos, pularam do nono andar do apartamento familiar após os pais confiscarem seus celulares e restringirem o acesso a dramas coreanos (K-dramas) e jogos online, aos quais elas estavam profundamente imersas. A polícia investiga o caso como suicídio, tendo encontrado uma nota de despedida de oito páginas, com referências a elementos da cultura sul-coreana e expressões de desespero pela perda do acesso aos dispositivos.
O pai, Chetan Kumar, relatou à imprensa local que as filhas desenvolveram uma “dependência profunda” de conteúdos coreanos, abandonando a escola há anos para passar a maior parte do tempo com os smartphones. “Elas diziam que queriam viajar para a Coreia”, declarou ele à agência Press Trust of India. Policiais confirmaram que as adolescentes não frequentavam aulas regularmente e que o confisco dos aparelhos, motivado pela preocupação com o isolamento e o vício, precipitou o ato extremo.
Esse episódio reacende o debate global sobre os riscos do consumo exagerado de mídias digitais, especialmente entre jovens. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece desde 2019 o “transtorno de jogos online” como uma condição que envolve perda de controle, prejuízos significativos na vida pessoal, familiar, social, educacional ou profissional por pelo menos 12 meses. Estudos científicos apontam que o uso problemático de smartphones pode gerar sintomas de ansiedade, irritabilidade, insônia e isolamento social — manifestações que, em casos graves, se assemelham a quadros de dependência comportamental.
No entanto, é importante esclarecer que o termo “nomofobia” — contração de “no mobile phone phobia” (medo de ficar sem celular) —, cunhado em 2008 a partir de pesquisa no Reino Unido, descreve especificamente a ansiedade intensa e o desconforto quando a pessoa fica sem o aparelho ou sem conectividade. Trata-se de uma fobia ou reação ansiosa ligada à separação do dispositivo, com sintomas como taquicardia, sudorese, tremores e pânico, mas não equivale necessariamente a um vício pleno no sentido clínico de dependência química.
Embora haja paralelos comportamentais com outras adições (como liberação de dopamina em recompensas instantâneas, semelhantes às de jogos ou redes sociais), o consenso científico atual não equipara o uso excessivo de smartphones a dependências de substâncias como drogas ou álcool em termos de gravidade neurobiológica ou consequências fisiológicas equivalentes. Muitos especialistas preferem falar em “uso problemático” ou “dependência comportamental” para evitar exageros diagnósticos.
A abordagem adotada pelos pais indianos — a retirada abrupta e total do celular — ilustra uma estratégia comum, porém frequentemente ineficaz e até contraproducente. Especialistas em saúde mental enfatizam que medidas radicais sem suporte profissional podem intensificar o sofrimento, gerar sensação de privação extrema e, em situações vulneráveis, agravar quadros de ansiedade ou depressão.
O tratamento adequado para dependências comportamentais envolve, em geral, intervenções graduais e multidisciplinares: terapia cognitivo-comportamental (TCC) para identificar gatilhos e modificar padrões de uso; técnicas de mindfulness para melhorar o autocontrole; estabelecimento de limites realistas (como horários sem tela ou “zonas livres” de dispositivos); e, quando necessário, acompanhamento psiquiátrico ou grupos de apoio.
Em casos graves, como o aparente na Índia, a consulta a profissionais de saúde mental — psicólogos, psiquiatras ou especialistas em adições comportamentais — é fortemente recomendada. A OMS e organizações como a American Psychological Association destacam que intervenções precoces, com foco na reconstrução de rotinas equilibradas, relações familiares saudáveis e atividades offline, oferecem melhores resultados do que proibições isoladas. No Brasil e em outros países, linhas de apoio como o CVV (188) ou serviços especializados em saúde digital podem ser o primeiro passo para quem percebe sinais de descontrole.
A tragédia de Ghaziabad serve como alerta doloroso: o vício em telas não é mero capricho juvenil, mas um fenômeno que exige compreensão, prevenção e tratamento sério. Proibir sem compreender pode ser tão arriscado quanto ignorar o problema. A sociedade precisa equilibrar o acesso à tecnologia com mecanismos de proteção, especialmente para os mais jovens, cuja formação emocional ainda está em curso.


