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Um cessar-fogo temporário de duas semanas entre os Estados Unidos, Israel e o Irã foi anunciado na noite de terça-feira,07, após seis semanas de confronto militar que ameaçaram interromper o fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz e elevar dramaticamente os riscos de uma escalada regional. O presidente Donald Trump recuou de sua advertência explícita de que “uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser restaurada”, caso o Irã não aceitasse reabrir a via marítima vital. Horas depois, Teerã concordou com a trégua e com negociações em Islamabad, no Paquistão, a partir desta sexta-feira. Imagens de celebrações nas ruas iranianas foram exibidas pela televisão estatal, sinalizando alívio momentâneo.
A ameaça de Trump, porém, não surgiu no vazio. O que ele chamou de “civilização” que poderia desaparecer não era a americana, nem a israelense. Era a do regime teocrático iraniano — esse mesmo que, há décadas, ergue como doutrina oficial o grito de “Morte à América” e “Morte a Israel”, financia o terrorismo global através do Hezbollah, do Hamas e das milícias xiitas, persegue e executa opositores internos, apedreja mulheres por “imodéstia” e sonha abertamente com o dia em que poderá projetar poder nuclear contra o Ocidente. Quando Trump falou em destruição irrevogável, referia-se à possibilidade de que o aparato fanático-religioso que governa o Irã fosse finalmente varrido do mapa. A distinção é crucial, mas foi convenientemente ignorada por quem prefere dramatizar a retórica americana.
Nessa linha, o senador democrata Ed Markey, de Massachusetts, escolheu dobrar a aposta. Nesta quarta-feira, em entrevista coletiva no Boston Common, ele insistiu na remoção imediata de Trump do cargo — por impeachment ou pela 25ª Emenda —, mesmo com o cessar-fogo já em vigor. Para Markey, as palavras duras do presidente equivalem a uma “ameaça de genocídio” contra o povo iraniano. O alívio pela trégua, admitiu ele, não altera em nada sua convicção: Trump seria “inapto” para governar, teria colocado o mundo em risco e destruído o “prestígio moral” dos Estados Unidos.
O raciocínio de Markey revela uma inversão perigosa de prioridades. O regime iraniano não esconde seus objetivos existenciais: aniquilar os Estados Unidos e seus aliados, destruir Israel e impor sua visão teocrática expansionista. Seu programa nuclear e de mísseis de longo alcance nunca foi civil; é instrumento de chantagem e, potencialmente, de holocausto atômico. Impedir que o Irã consiga artefatos nucleares capazes de atingir cidades americanas ou europeias não é agressão imperialista — é autodefesa elementar e, acima de tudo, um imperativo moral. Quem finge não ver isso pratica um revisionismo cego, que transforma o agressor em vítima e o defensor em criminoso.
Markey e a ala mais radical dos democratas parecem confortáveis nessa inversão. Defendem, na prática, um regime que mata seus próprios cidadãos por protestar, que exporta terror e que promete há décadas o apagamento do “Grande Satã”. Ao mesmo tempo, condenam com fúria qualquer esforço americano ou israelense para conter o avanço nuclear e balístico iraniano. Se, um dia — quem sabe —, o Irã conseguisse montar ogivas atômicas e apontá-las contra Nova York, Tel Aviv ou Londres, é lícito perguntar se essa mesma corrente política não encontraria sofismas para justificar ou minimizar a catástrofe, culpando, como de costume, a “provocação” ocidental.
A imposição de limites rígidos a esse regime não é opcional. É obrigação moral e estratégica de qualquer nação que valorize a sobrevivência da civilização liberal. Distante dessa compreensão básica está grande parte da esquerda democrata contemporânea, mais obcecada em demonizar Donald Trump do que em confrontar o perigo real representado por fanáticos religiosos armados com ideologia apocalíptica e ambições nucleares.
O cessar-fogo, como era previsível, já mostra fissuras. Israel prosseguiu com ataques contra o Hezbollah no Líbano, o Irã ameaçou fechar novamente o Estreito de Ormuz e as versões do acordo divergem radicalmente entre as partes. Enquanto isso, Markey e seus pares mantêm o foco obsessivo: não na ameaça existencial do regime iraniano, mas na suposta periculosidade de um presidente americano que, ao menos, teve a coragem de nomear o inimigo pelo que ele é.
A história costuma ser implacável com aqueles que, diante de ameaças civilizacionais, preferem mirar no mensageiro em vez de enfrentar a ameaça. O tempo revelará o preço dessa miopia ideológica — e quem, exatamente, pagará por ela.


