
Boston, 13 de janeiro de 2026
Em Vidas Secas, Graciliano Ramos constrói uma das mais poderosas críticas sociais da literatura brasileira ao mostrar como a falta de domínio da linguagem formal condena o homem do sertão à condição de quase-animal, vulnerável à arbitrariedade do poder. O trecho — “Então mete-se um homem na cadeia porque ele não sabe falar direito? Que mal fazia a brutalidade dele? Vivia trabalhando como um escravo...”— surge no capítulo “Cadeia”, quando Fabiano, após ser surrado e preso injustamente pelo soldado amarelo, reflete no escuro da cela sobre sua própria impotência.
Fabiano é um vaqueiro bruto, rude, analfabeto, que vive agarrado aos bichos. Ele mesmo chega à conclusão dolorosa: “Vivia tão agarrado aos bichos… Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas nos seus lugares. […] Se lhe tivessem dado ensino, encontraria meio de entendê-la. Impossível, só sabia lidar com bichos.”
Essa frase é devastadora porque resume a tragédia do personagem: seu mundo é o da comunicação instintiva, da relação direta com os animais (exclamações, onomatopeias, gestos), e não o da palavra articulada, da argumentação lógica que o sistema jurídico e a autoridade exigem. Ele domina perfeitamente o manejo do gado, conserta cercas, cura cascos, desentope bebedouros — tarefas práticas e concretas —, mas, diante do “governo” (representado pelo soldado), sua fala se dissolve em balbúcias: “Isto é. Vamos e não vamos. Quer dizer. Enfim, contanto, etc. É conforme.”
Quando o soldado o provoca e o prende, Fabiano não consegue se explicar, não sabe usar as “palavras compridas e difíceis da gente da cidade”. Ele gagueja, repete frases ouvidas de terceiros (como Seu Tomás da Bolandeira), e acaba aceitando a surra e a cadeia sem defesa. A brutalidade física que ele pratica (ou poderia praticar) não é o problema real; o que o condena é a brutalidade da exclusão linguística. Sem escola, sem leitura, sem prática da linguagem como instrumento de poder, ele é tratado como bicho: rosna “Hum! hum!”, é empurrado, surrado com facão, trancado.
Graciliano usa essa incapacidade verbal para denunciar uma forma de violência estrutural: o sertanejo pobre é desumanizado duas vezes. Primeiro pela seca, pela miséria e pelo trabalho escravo; depois pela sociedade que o julga e pune com base em códigos que ele não domina. A linguagem, nesse romance, não é mero ornamento — é poder. Quem fala “direito” (o patrão, o soldado, o juiz) domina; quem não fala vira objeto, cabra, bicho.
Fabiano chega a se reconhecer como “bruto” e aceita: “Cada qual como Deus o fez. Ele, Fabiano, era aquilo mesmo, um bruto.” Mas essa aceitação é amarga, porque nasce da consciência de que sua “brutalidade” (a rudeza física e verbal) não é defeito moral, e sim consequência da ausência de instrução. Ele trabalha como escravo, é honesto no trato com os animais alheios, mas isso não basta: sem voz articulada, ele não tem direitos.
Assim, o episódio da cadeia não é apenas uma injustiça pontual; é a metáfora perfeita da exclusão do sertanejo nordestino no Brasil de então (e, em muitos aspectos, ainda hoje). A prisão de Fabiano não ocorre por roubo ou crime grave, mas porque ele não sabe falar direito — e, no universo de Graciliano, isso equivale a não ser plenamente humano perante a lei e a autoridade. A seca seca a terra; a ignorância seca a voz. E sem voz, o homem vira bicho preso na corrente do sistema.


