Eliana Pereira Ignacio
Olá, meus caros leitores. Dando continuidade ao artigo da semana passada, início hoje a afirmando que, depois de compreender que deixar ir não é perder, muitas pessoas acreditam que o passo seguinte deveria ser leve, rápido, quase imediato — como se a decisão de soltar encerrasse, por si só, o processo emocional. Mas a verdade, confirmada pela psicologia clínica e pela experiência humana, é outra: há dores que não se resolvem com decisões, mas com travessias.
Soltar é um movimento consciente. Chorar é um movimento do corpo, da alma, da memória. E ambos precisam coexistir. Vivemos em uma cultura que valoriza a superação rápida, o “seguir em frente”, o controle emocional. No entanto, do ponto de vista psicológico, o choro é uma forma legítima de integração emocional. Ele não nos prende ao passado; ao contrário, permite que o passado encontre um lugar que não seja o presente.
Quando tentamos soltar algo sem antes chorar o que foi perdido — ou o que nunca chegou a ser — corremos o risco de carregar essa dor em silêncio, transformada em ansiedade, irritabilidade, rigidez emocional ou exaustão interna. A clínica mostra que emoções não processadas tendem a reaparecer como sintomas, e não como lembranças integradas. Nem todo luto é pela morte. Há lutos por versões de nós mesmos, por relações que não amadureceram, por expectativas sustentadas tempo demais, por papéis assumidos para sobreviver.
Esses lutos são frequentemente invisíveis e, exatamente por isso, mais difíceis de elaborar. E aqui está o ponto central deste artigo e o elo direto com o texto anterior: soltar não é negar a dor. É atravessá-la com dignidade.
No artigo anterior, falamos sobre a maturidade de compreender que soltar não significa fracassar, abandonar ou desperdiçar a própria história. Mas toda decisão emocional tem um desdobramento interno. Este segundo texto existe porque, após decidir soltar, algo dentro de nós ainda precisa ser acolhido.
Há Coisas Que Precisam Ser Choradas Antes de Serem Soltas aprofunda esse processo ao reconhecer que:
- a mente decide,
- o coração sente,
- e o corpo precisa de tempo.
Este título diz ao leitor: você não está voltando atrás por ainda doer; você está apenas honrando o que foi importante.
Ele impede que o “deixar ir” se transforme em negação emocional disfarçada de força — algo frequentemente observado em pessoas altamente funcionais, mas internamente exaustas.
Chorar é um ato de respeito à própria história. Não é se apegar. É reconhecer que algo teve valor e permitir que a memória se reorganize sem violência interna. Quando uma pessoa se permite chorar, ela está dizendo: isso importou, e eu posso seguir sem apagar o que vivi. Isso é saúde emocional.
A dignidade emocional não está em “não sentir”. Está em não se perder dentro do que se sente. Atravessar a dor com dignidade é permitir-se sentir sem se afogar, lembrar sem se aprisionar, chorar sem se desorganizar. É um processo ativo, não passivo — envolve presença, autocompaixão e, muitas vezes, fé. Uma leitura cristã da travessia da do.
Na visão cristã, o choro não é ausência de fé, mas expressão de confiança. As Escrituras nos apresentam um Cristo que chorou, que se comoveu profundamente diante da dor humana e que nunca apressou o sofrimento com explicações fáceis.
Chorar diante de Deus não é sinal de fraqueza espiritual, mas de intimidade: é reconhecer limites e confiar que Ele sustenta aquilo que não conseguimos carregar sozinhos. Quando o choro é vivido com honestidade, algo importante acontece: o apego perde força. Não porque a memória desaparece, mas porque ela deixa de doer.
O corpo entende que já não precisa se defender. A alma compreende que pode seguir. Então, o soltar acontece quase como consequência — silencioso, maduro, sem alarde. Deixar ir, nesse ponto, não é luta. É descanso. Para quem está no meio do caminho, atente-se a este detalhe importante: se você já entendeu que deixar ir não é perder, mas ainda sente o peso da dor, este texto é para você. Não se apresse.
Não se julgue. Não espiritualize antes de sentir. Chore o que precisa ser chorado. Porque só o que foi verdadeiramente sentido pode ser verdadeiramente solto. E quando isso acontece, o passado deixa de ser prisão e se transforma em memória — integrada, honrada, em paz.
“O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã” (Salmos 30:5).
Até a próxima semana.
Eliana Pereira Ignacio é Psicóloga, formada pela PUC – Pontifícia Universidade Católica – com ênfase em Intervenções Psicossociais e Psicoterapêuticas no Campo da Saúde e na Área Jurídica; especializada em Dependência Química pela UNIFESP Escola Paulista de Medicina em São Paulo Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas, entre outras qualificações. Mora em Massachusetts e dá aula na Dardah University. Para interagir com Eliana envie um e-mail para epignacio_vo@hotmail.com ou info@jornaldossportsusa.com


