Edel Holz
O Cine Alvorada cava na Expedicionários. Todo passensse que se prezava sabia onde o Cine Alvorada se localizava. A gente ia nas matinês assistir aos lmes do Mazzaroppi e do Tarzan lá no domingo. O problema, pra nós, crianças, é que à noite passavam filmes adultos, pra não dizer pornográficos, e às vezes eles esqueciam de trocar os traillers adultos por um Tarzan, por exemplo. Nós, crianças, tínhamos que tapar os olhos pra não vermos o povo nu que nem índio.
O melhor de tudo era que a gente chegava com o dinheiro dobradinho pra comprar bala e pipoca. Eu comprava bala chita, pipper e umas de astronauta deliciosas que nunca mais vi. Éramos recebidos com muito carinho pelo querido Quinzinho, que revezava entre o Cine Alvorada à tarde e o Roxy à noite, em plena praça da Matriz.
Passos era chic no “urtimo” com dois cinemas no centro da cidade! Meu irmão Gustavo, um dia, me levou pra assistir Os Três Mosqueteiros com Gene Kelly. Antes do filme começar, passou o trailler de Calígula e Garganta Profunda, e eu soltei o maior grito: — Nossa… que pinto grande! Todo mundo que estava na sala de cinema riu e eu quase morri de vergonha. Aliás, reza a lenda que as freiras do Colégio foram assistir Calígula porque pensavam ser um filme histórico.
Ficaram até o m, com vergonha de serem reconhecidas se saíssem no meio da ta. Esperaram a película finalizar e foram embora, totalmente perplexas com a depravação do Calígula.
Me lembro que sempre que passava na porta do Alvorada, via um cartaz diferente de filmes, em sua maioria brasileiros: A Estrela Sobe com Betty Faria, Branca de Neve e os Sete Anões pra adultos com Aldine Muller, Mazzaroppi e outros tantos lmes da época. O Cine Alvorada infelizmente virou igreja evangélica e Passos passou a ter apenas um cinema, somente o Roxy.
Fica a saudade das balas, das fitas do Mazzaroppi e do Tarzan, do sorvete do Normélio depois da sessão e da simpatia do Quinzinho, que além de porteiro era lanterninha. E era tudo bão demais da conta!
SOBRE A COLUNISTA: Edel Holz é a mais premiada e consagrada atriz, roteirista, diretora e produtora teatral brasileira nos Estados Unidos. Inquieta e de mente profícua, Edel tem sempre um projeto cultural engatilhado para oferecer para a comunidade brasileira. Depois de anos de ausência, Edel volta a abrilhantar as páginas de um jornal. Damos as boas vinda à poderosa e de mente efervescente Edel.


