Eliana Pereira Ignacio
Olá meus caros leitores, hoje venho lhes falar sobre um sentimento que, muitas vezes, não chega fazendo barulho. Ele não grita, não exige, não se impõe. Pelo contrário, ele se instala em silêncio. É uma tristeza diferente. Não é aquela tristeza intensa que nos faz chorar imediatamente. Nem aquela que vem de uma perda clara e identificável.
É uma tristeza mais sutil… quase discreta. Mas, ainda assim, profundamente presente. Ela aparece quando algo dentro de nós percebe que aquilo que valorizamos está, de alguma forma, se distanciando. E talvez o mais difícil seja justamente isso: nem sempre conseguimos explicar exatamente o que estamos sentindo. Está tudo “funcionando”. As coisas continuam acontecendo. As rotinas seguem. Mas, internamente… algo parece fora do lugar.
Na psicologia, aprendemos que nem todo sofrimento vem de grandes eventos. Muitas vezes, ele nasce de pequenas desconexões que vão se acumulando ao longo do tempo. Desconexões entre o que acreditamos… e o que vivemos. Entre o que sentimos… e o que conseguimos expressar. Entre o que consideramos essencial… e o que começa a ser deixado de lado.
E é nesse espaço que essa tristeza silenciosa encontra lugar. Ela não pede atenção imediata. Mas também não desaparece. Fica ali, como um lembrete interno de que algo precisa ser olhado com mais cuidado.
Às vezes, tentamos ignorar. Dizemos a nós mesmos que é apenas cansaço, que vai passar, que precisamos seguir em frente. E, em parte, isso é verdade — seguir é necessário. Mas também é necessário sentir. Porque sentimentos ignorados não desaparecem. Eles apenas mudam de forma. Podem virar irritação. Podem virar desmotivação. Podem virar um certo distanciamento — de situações, de pessoas… e até de nós mesmos.
Por isso, há algo muito importante em reconhecer essa tristeza sem julgamento. Ela não é fraqueza. Ela não é falta de gratidão. Ela não é sinal de incapacidade. Ela é, muitas vezes, um sinal de sensibilidade. Um indicativo de que existe dentro de nós um senso de valor, de propósito, de significado… que ainda está vivo.
E isso é algo precioso. Porque só se entristece aquilo que, de alguma forma, se importa. Na prática clínica, vemos com frequência que pessoas que sentem profundamente também carregam uma grande capacidade de cuidado, de empatia e de compromisso com aquilo que fazem.
Mas, justamente por isso, também são mais afetadas quando percebem incoerências, distanciamentos ou perdas de sentido. E aqui entra um ponto delicado — e muito humano: Nem sempre podemos mudar imediatamente aquilo que nos entristece. E isso pode gerar uma sensação de impotência. Mas, mesmo quando não podemos mudar o cenário externo, ainda podemos escolher como nos posicionamos internamente diante dele. Podemos nos endurecer… ou podemos nos escutar.
Podemos nos desconectar… ou podemos nos acolher. E, muitas vezes, o primeiro passo não é resolver — é reconhecer. Reconhecer que algo nos tocou. Que algo nos afetou. Que algo, dentro de nós, precisa de cuidado. Esse reconhecimento já é, por si só, um movimento de saúde emocional.
Porque quando nos permitimos sentir com consciência, abrimos espaço para elaborar, compreender e, aos poucos, ressignificar. E talvez, no meio dessa tristeza silenciosa, exista também um convite. Um convite para voltar a si. Para revisitar valores.
Para lembrar o que realmente importa. E, quem sabe, para reencontrar caminhos — internos ou externos — que estejam mais alinhados com aquilo que sustenta nossa essência. A fé também nos lembra algo profundamente reconfortante: Nem todo momento de tristeza é um retrocesso.
Às vezes, é um tempo de ajuste. De alinhamento. De preparo. Se hoje você se identifica com esse sentimento, saiba: você não está sozinho.
E essa tristeza, por mais silenciosa que seja, também pode ser um caminho — não de perda, mas de reencontro.
Até a próxima semana!
“Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito abatido.” (Salmos 34:18)
Eliana Pereira Ignacio é Psicóloga, formada pela PUC – Pontifícia Universidade Católica – com ênfase em Intervenções Psicossociais e Psicoterapêuticas no Campo da Saúde e na Área Jurídica; especializada em Dependência Química pela UNIFESP Escola Paulista de Medicina em São Paulo Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas, entre outras qualificações. Mora em Massachusetts e dá aula na Dardah University. Para interagir com Eliana envie um e-mail para epignacio_vo@hotmail.com ou info@jornaldossportsusa.com


