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Roma, 13 de abril de 2026 – Em declarações feitas a jornalistas a bordo do avião papal, rumo a Argel, o papa Leão XIV foi taxativo: “Não tenho medo do governo Trump”. O pontífice acrescentou que não tem “a intenção de entrar em um debate” com o presidente americano e que sua única preocupação é defender o fim das guerras. Chegou mesmo a sugerir que as palavras de Trump revelam quem “não compreende qual é a mensagem do Evangelho”. Até aqui, a notícia parece apenas mais um episódio da eterna tensão entre o trono de Pedro e o poder temporal.
Mas é exatamente nessa serenidade calculada que se revela a verdadeira natureza da postura vaticana: uma coragem altamente seletiva, uma virtude que se exibe com segurança apenas onde o preço a pagar é próximo de zero.
Leão XIV não precisa temer Donald Trump. O presidente dos Estados Unidos, por mais contundente que seja em suas críticas, não decapita dissidentes, não enforca mulheres por “imodéstia”, não financia milícias que sonham em varrer o Ocidente do mapa e, sobretudo, não prega abertamente a destruição da própria Igreja Católica. Trump encarna uma democracia liberal – barulhenta, imperfeita, mas que permite ao Papa criticá-la sem que missionários sejam arrastados para prisões ou fiéis perseguidos em massa. É o adversário ideal para quem deseja posar de profeta sem arriscar nada.
O problema não está no que Leão XIV disse sobre Washington. Está no que ele persistentemente cala diante de regimes que realmente promovem o genocídio, o extermínio de inocentes e a perseguição sistemática de cristãos. O Irã oferece o exemplo mais evidente e atual: um regime teocrático fundamentalista que nunca escondeu sua ambição de dominar o mundo sob sua visão islâmica radical, que exporta terror, que massacra seu próprio povo e que mantém os cristãos – especialmente os convertidos – sob vigilância constante, prisões arbitrárias e ameaças de morte. Sobre isso, o silêncio vaticano não é omissão casual. É escolha deliberada. É a mesma “paz a qualquer preço” que já marcou a história da Igreja com capítulos dolorosos.
Essa tradição de passividade tem raízes profundas. Pio XII diante do Holocausto, a cautela excessiva com o comunismo soviético, a diplomacia branda com Pequim nos dias de hoje. E, mais recentemente, a omissão eloquente diante da corrupção endêmica na América Latina – especialmente no Brasil, onde o contraste entre o discurso oficial da Igreja e a realidade brutal da miséria produzida pela roubalheira estatal se torna escandaloso.
Enquanto a chamada “teologia da libertação” – ou sua versão materialista atual que ainda domina largos setores da hierarquia eclesial brasileira e latino-americana – condena com fúria quase litúrgica o “capitalismo liberal”, o livre comércio e o “neoliberalismo” como as raízes estruturais de todos os males sociais, o Vaticano e a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) mantêm um silêncio cúmplice, quando não benevolente, diante dos escândalos de corrupção que drenam bilhões de reais dos cofres públicos e condenam milhões de pobres a uma miséria ainda mais profunda. Sabemos, com dados irrefutáveis de estudos econômicos sérios, que a corrupção sistêmica retira muito mais dos mais necessitados do que qualquer suposta falha do mercado: desvia verbas de hospitais, escolas, saneamento básico e programas sociais; perpetua ciclos de dependência; enriquece oligarquias políticas e empreiteiras sob o manto hipócrita da “justiça social” e da “inclusão”.
No Brasil, os exemplos recentes e monumentais são impossíveis de ignorar. Durante os governos do PT, o Mensalão e o Petrolão não foram meros “deslizes”; foram esquemas organizados de saque ao erário que envolveram a Petrobras, a maior empresa do país, e que desviaram dezenas de bilhões de reais – recursos que poderiam ter sido usados para reduzir a fome, melhorar a educação pública ou combater a violência nas periferias. O Vaticano, no entanto, preferiu o silêncio ou declarações genéricas sobre “ética na política”, enquanto bispos e teólogos alinhados à linha oficial atacavam com virulência as reformas liberais ou as operações de combate à corrupção, como a Lava Jato, tratadas quase como perseguição política. A mesma CNBB que emite documentos inflamados contra o “individualismo mercantil” e contra governos que ousam reduzir o tamanho do Estado foi notavelmente branda – ou mesmo solidária – com os governos que transformaram a corrupção em método de governança, transformando a “teologia do povo” em teologia do clientelismo e da impunidade.
Leão XIV – como seus antecessores recentes – parece preferir condenar o sistema que, apesar de todas as suas imperfeições, gera riqueza, inovação e liberdade a confrontar o roubo organizado que empobrece nações inteiras em nome de uma visão distorcida de solidariedade cristã. Essa omissão não é neutra: ela legitima, por omissão, o maior roubo aos pobres que o Brasil já viu em décadas. Enquanto o Papa fala alto contra Trump e contra o “capitalismo selvagem”, o silêncio sobre a corrupção brasileira – que mata mais crianças por desnutrição e falta de saneamento do que qualquer crise de mercado – revela o verdadeiro critério que guia a diplomacia vaticana: criticar democracias liberais do Ocidente é exercício de virtude relativa, aplaudido em certos círculos progressistas, sem consequências graves para a Igreja. Confrontar regimes que matam cristãos, perseguem dissidentes e sonham com a dominação teocrática global, ou mesmo oligarquias locais que saqueiam em nome do povo, exige coragem real – e, ao que tudo indica, essa coragem não faz parte do repertório atual.
Leão XIV deveria recordar as palavras do próprio Mestre: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Sua missão não é gerir o mundo temporal como um líder político, mas proclamar o Reino de Deus com verdade e justiça – sem medo seletivo. Condenar a guerra é legítimo; mas transformar o Evangelho em instrumento de omissão diante do mal concreto, enquanto se ataca com veemência quem tenta defender o Ocidente majoritariamente Cristão, é trair a própria essência profética da Igreja.
O sangue dos cristãos perseguidos no Irã, das vítimas da corrupção que rouba o pão dos pobres na América Latina e dos inocentes massacrados por regimes que nunca esconderam seu ódio à liberdade continua a clamar da terra. Tiago 4:17 é implacável: “Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado”.
Leão XIV pode declarar, sem temor, que não teme o governo Trump. A questão incômoda que permanece é outra: teria ele a mesma clareza e a mesma veemência para dizer, olhando nos olhos dos verdadeiros opressores, que não teme o mal que busca destruir tanto o Ocidente quanto a própria Igreja? Então porque não faz? A história recente, marcada por silêncios eloquentes, sugere que não.
E é exatamente esse silêncio seletivo que, mais uma vez, mata. A Igreja de Cristo não foi chamada a ser diplomata do mal, mas sal da terra e luz do mundo. Quando escolhe calar diante do tirano e falar alto apenas contra regimes democráticos, ela perde não apenas credibilidade: perde sua alma profética.


