Eliana Pereira Ignacio
Ola meus caros leitores, na semana passada, refletimos sobre como o corpo fala aquilo que a alma sente — como sintomas físicos, muitas vezes, são expressões silenciosas de dores emocionais não elaboradas. Hoje, damos um passo adiante nessa jornada de consciência: compreender que errar faz parte da condição humana, e que reconhecer o erro não é sinal de fraqueza, mas de maturidade emocional, humildade e coragem.
Fomos, em grande parte, ensinados — direta ou indiretamente — que errar significa perder valor, decepcionar, ou até mesmo deixar de ser digno de amor. Muitas pessoas cresceram em ambientes onde o erro era punido com silêncio, crítica ou rejeição. Assim, formou-se uma associação profunda e dolorosa: “se eu erro, eu não sou bom o suficiente”. Essa crença, quando internalizada, não apenas limita o crescimento pessoal, mas também impacta diretamente a saúde emocional — e, como vimos, inevitavelmente repercute no corpo.
Na prática clínica, é comum observar indivíduos que carregam uma dificuldade significativa em dizer duas palavras simples: “eu errei”. Não porque não reconheçam o erro, mas porque o peso emocional associado a essa admissão é quase insuportável. Surge então a defesa: negação, justificativas, projeções. Afinal, admitir o erro, para muitos, ainda é sinônimo de exposição à dor da rejeição. No entanto, a psicologia nos mostra um caminho diferente.
Segundo Carl Rogers, um dos principais nomes da psicologia humanista, “o curioso paradoxo é que quando me aceito como sou, então posso mudar”. Essa afirmação revela uma verdade profunda: a transformação genuína não nasce da negação, mas da aceitação honesta da própria realidade — incluindo nossas falhas. Reconhecer o erro é, portanto, um ato de integração. É o momento em que a pessoa deixa de lutar contra si mesma e passa a se alinhar com a verdade do que aconteceu. Esse alinhamento reduz o conflito interno, diminui a ansiedade e abre espaço para a autorregulação emocional. Em termos clínicos, isso fortalece o senso de identidade e promove maior flexibilidade cognitiva — a capacidade de rever pensamentos, ajustar comportamentos e crescer com a experiência.
A terapia cognitivo-comportamental (TCC), amplamente utilizada na prática clínica, trabalha exatamente essa habilidade: ajudar o indivíduo a identificar pensamentos disfuncionais associados ao erro — como “eu sou um fracasso” — e substituí-los por interpretações mais realistas e compassivas, como “eu cometi um erro, mas posso aprender com isso”. Essa mudança de perspectiva não é apenas cognitiva; ela impacta diretamente o emocional e o comportamental. Além disso, reconhecer o erro também fortalece vínculos.
Em relações interpessoais, a capacidade de assumir responsabilidade promove confiança, autenticidade e reparação. Como afirma Brené Brown, pesquisadora da vulnerabilidade, “a vulnerabilidade não é fraqueza; é a nossa maior medida de coragem”. Dizer “errei” é um ato vulnerável — e, justamente por isso, profundamente humano e transformador. Quando evitamos o reconhecimento do erro, mantemos um ciclo de tensão interna.
O corpo, então, pode começar a expressar aquilo que não foi verbalizado: dores, fadiga, insônia, irritabilidade. Mais uma vez, o corpo fala. E o que ele muitas vezes está tentando dizer é: “pare de lutar contra a verdade”. Há uma coerência entre o que sentimos, pensamos e fazemos que precisa ser restaurada para que haja saúde integral. Do ponto de vista do desenvolvimento emocional, aprender a lidar com o erro de forma saudável é um marco de maturidade.
Significa sair de uma posição infantil — onde o erro é temido e evitado — para uma postura adulta, onde o erro é reconhecido, compreendido e transformado em aprendizado. É nesse processo que a autoestima se fortalece, não pela perfeição, mas pela autenticidade. Sob uma perspectiva cristã, reconhecer o erro também ocupa um lugar central no caminho espiritual. A fé cristã não nega a imperfeição humana; ao contrário, a reconhece como parte da nossa natureza. No entanto, ela também oferece redenção, graça e a possibilidade de recomeço.
Admitir o erro diante de Deus não é motivo de condenação, mas de reconciliação. Essa visão dialoga profundamente com a psicologia clínica: ambos os caminhos — o terapêutico e o espiritual — apontam para a importância da verdade, da aceitação e da responsabilidade como pilares do crescimento e da cura.
Portanto, talvez seja o momento de ressignificar o erro. Em vez de vê-lo como um inimigo, podemos começar a enxergá-lo como um professor. Em vez de temê-lo, podemos acolhê-lo como parte do processo de ser humano. Dizer “eu errei” não diminui ninguém — ao contrário, revela grandeza.
Revela alguém que tem coragem de olhar para si, de assumir sua humanidade e de escolher crescer. E assim, damos continuidade à reflexão anterior: quando o corpo fala o que a alma sente, talvez uma das mensagens mais urgentes seja justamente essa — a necessidade de parar de fugir de si mesmo. A cura começa quando há verdade.
E a verdade, muitas vezes, começa com duas palavras simples, mas profundamente libertadoras: “eu errei”. “Se confessarmos os nossos pecados, Ele é el e justo para nos perdoar os pecados e nos puri car de toda injustiça.” 1 João 1:9
Eliana Pereira Ignacio é Psicóloga, formada pela PUC – Pontifícia Universidade Católica – com ênfase em Intervenções Psicossociais e Psicoterapêuticas no Campo da Saúde e na Área Jurídica; especializada em Dependência Química pela UNIFESP Escola Paulista de Medicina em São Paulo Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas, entre outras qualificações. Mora em Massachusetts e dá aula na Dardah University. Para interagir com Eliana envie um e-mail para epignacio_vo@hotmail.com ou info@jornaldossportsusa.com


