Eliana Pereira Ignacio
Olá, meus caros leitores… Na semana passada, falamos sobre a coragem de dizer “errei”. Uma frase simples, mas carregada de peso, história e, muitas vezes, medo. Reconhecer o erro é, sem dúvida, um passo nobre — um ato de humildade que nos reconecta com a nossa humanidade.
Mas hoje eu te convido a ir além. Porque há uma verdade silenciosa que poucos têm coragem de encarar: reconhecer, por si só, não transforma. Vivemos, muitas vezes, presos a uma ilusão emocional — a de que admitir o erro já é suficiente para que algo dentro de nós mude. E, embora esse seja um passo essencial, ele ainda é apenas o começo.
Há pessoas que reconhecem, pedem desculpas… e continuam repetindo os mesmos padrões, as mesmas reações, os mesmos comportamentos. E por quê? Porque transformar exige mais do que consciência. Transformar exige responsabilidade emocional, enfrentamento e ação consistente. Na prática clínica, vemos com frequência a diferença entre dois movimentos internos: culpa e responsabilização. A culpa, quando não elaborada, paralisa.
Ela nos faz girar em torno do erro, alimenta o autocriticismo e muitas vezes nos mantém presos a uma identidade baseada na falha — “eu sou assim mesmo”, “eu sempre estrago tudo”. Já a responsabilização emocional é um movimento ativo. Ela pergunta: “O que eu faço com isso que eu reconheci?” Essa é a pergunta que abre caminho para a transformação.
Como já dizia Carl Rogers, um dos grandes nomes da psicologia humanista: “O curioso paradoxo é que quando eu me aceito como sou, então posso mudar.” Perceba a profundidade dessa ideia. A transformação não nasce da autocrítica severa, mas de um encontro honesto consigo mesmo — sem máscaras, sem justificativas, mas também sem autodestruição. É nesse espaço de verdade interna que surge a possibilidade real de mudança.
Transformar implica revisitar padrões, compreender suas origens e, principalmente, escolher respostas diferentes, mesmo quando isso exige esforço emocional. Além disso, é importante compreender que a transformação verdadeira não acontece apenas no campo das grandes decisões, mas, principalmente, nos pequenos movimentos do cotidiano.
São nas respostas aparentemente simples — no tom de voz ajustado, na pausa antes de reagir, na escolha de ouvir em vez de atacar — que a mudança começa a se consolidar de forma real e duradoura. Muitas pessoas esperam sentir-se completamente prontas para mudar, mas essa prontidão, na maioria das vezes, não vem antes da ação — ela nasce durante o processo.
A transformação, portanto, não é um evento, mas um caminho construído passo a passo, com consciência e intencionalidade. É também um exercício de paciência consigo mesmo. Porque mudar padrões emocionais exige tempo, repetição e, sobretudo, compromisso. Haverá dias de avanço e dias de recaída — e isso não invalida o processo, pelo contrário, faz parte dele. Não é confortável. Não é automático. E, muitas vezes, não é rápido. Transformar é interromper ciclos. É pausar antes de reagir. É sustentar o desconforto sem fugir. É abrir mão de velhos mecanismos que um dia até nos protegeram, mas que hoje nos limitam. Na abordagem cognitivo-comportamental, entendemos que pensamentos, emoções e comportamentos estão profundamente conectados. Reconhecer um erro pode trazer consciência sobre um pensamento distorcido — mas a mudança só acontece quando há um trabalho intencional de reestruturação e prática de novas respostas. Ou seja: insight sem ação mantém o ciclo. E talvez aqui esteja um dos maiores desafios emocionais do ser humano: sair do lugar da consciência e entrar no território da prática. Porque transformar exige repetição, tentativa e, muitas vezes, falhar de novo — mas falhar diferente.
Existe também um ponto delicado e essencial: a reparação. Sempre que possível, transformar envolve reparar — não apenas com o outro, mas consigo mesmo. Isso inclui desenvolver uma nova forma de se tratar internamente, substituindo a dureza pela responsabilidade com compaixão. Não se trata de se poupar das consequências, mas de não se aprisionar a elas.
E essa escolha…é onde a sua história começa a mudar. Como já dizia Viktor Frankl: “Quando não podemos mais mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos.”
E talvez seja exatamente esse o convite mais profundo deste texto: não esperar que tudo ao redor se ajuste, mas assumir, com coragem, o protagonismo da própria transformação.
“Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto.” (Salmos 51:10)
Até a próxima semana.
Eliana Pereira Ignacio é Psicóloga, formada pela PUC – Pontifícia Universidade Católica – com ênfase em Intervenções Psicossociais e Psicoterapêuticas no Campo da Saúde e na Área Jurídica; especializada em Dependência Química pela UNIFESP Escola Paulista de Medicina em São Paulo Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas, entre outras qualificações. Mora em Massachusetts e dá aula na Dardah University. Para interagir com Eliana envie um e-mail para epignacio_vo@hotmail.com ou info@jornaldossportsusa.com


