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A Organização das Nações Unidas (ONU) apelou nesta quarta-feira (6) para que Israel liberte de forma imediata e incondicional o espanhol Saif Abu Keshek e o brasileiro Thiago Ávila, ativistas da Flotilha Global Sumud interceptada em águas internacionais. A ONU também demandou uma investigação sobre “relatos perturbadores” de graves maus-tratos sofridos pelos dois homens, que permanecem detidos sem acusação formal em uma prisão de Ashkelon.
Abu Keshek e Ávila estavam entre os cerca de 175 participantes da missão humanitária que tentava romper o bloqueio israelense à Faixa de Gaza. A embarcação foi interceptada pela Marinha de Israel no final de abril, próximo à costa da Grécia. Enquanto a maioria dos ativistas foi liberada na Grécia, os dois foram transferidos para Israel.
“Israel deve libertar imediata e incondicionalmente Saif Abu Keshek e Thiago Ávila, membros da Flotilha Global Sumud, detidos em águas internacionais e levados a Israel, onde continuam presos sem acusação”, afirmou Thameen al-Kheetan, porta-voz do escritório de direitos humanos da ONU, em comunicado oficial.
Representantes dos ativistas e a organização israelense de direitos humanos Adalah denunciam abusos psicológicos. Os dois estão em greve de fome há seis dias. Segundo advogadas da Adalah, Ávila relatou interrogatórios de até oito horas, isolamento total e celas com iluminação artificial intensa 24 horas por dia, prática destinada a provocar privação de sono. Há relatos ainda de ameaças de morte e sinais visíveis de exaustão.
Em audiência realizada nesta terça-feira (5) no Tribunal de Magistrados de Ashkelon, a Justiça israelense prorrogou a prisão preventiva dos ativistas até o próximo domingo (10). A primeira extensão havia sido concedida no domingo anterior por dois dias. As autoridades israelenses baseiam a medida em investigações sobre supostas ligações dos detidos com uma organização sancionada pelos Estados Unidos, acusada de atuar em favor do Hamas.
O Ministério das Relações Exteriores de Israel classificou as denúncias de tortura como “alegações falsas e infundadas preparadas previamente”. Afirmou ainda que a interceptação ocorreu “em conformidade com o direito internacional”, devido ao risco de rompimento do bloqueio naval a Gaza, e que os ativistas “não foram submetidos à tortura em momento algum”.
O Itamaraty informou que presta “toda a assistência consular ao brasileiro” e acompanha as audiências na Justiça israelense.
O caso ganhou repercussão internacional, com governos de Brasil e Espanha questionando a legalidade da detenção em águas internacionais e cobrando a libertação dos seus cidadãos. Os ativistas permanecem em isolamento na prisão de Shikma, em Ashkelon.
Polêmica anterior: acusações de má conduta sexual contra Thiago Ávila
Antes mesmo da interceptação da flotilha, Thiago Ávila, militante do PSOL e uma das lideranças da missão, foi alvo de acusações de má conduta sexual que geraram forte polêmica interna e externa ao movimento.
Em meados de abril de 2026, um grupo palestino chamado Heart of Falastin divulgou que um “membro sênior do comitê diretivo” da flotilha — identificado como o brasileiro — teria mantido relações sexuais com pelo menos três voluntárias, configurando suposto abuso de poder. As denúncias circularam intensamente em redes sociais e foram repercutidas pela imprensa internacional, especialmente pelo New York Post.
Ávila negou categoricamente as acusações, classificando-as como “campanha de difamação” destinada a deslegitimar a causa palestina. O Comitê de Ética da Flotilha Global Sumud abriu investigação interna e concluiu, em relatório divulgado em 14 de abril, que as denúncias eram infundadas.
As três mulheres citadas foram ouvidas e negaram qualquer relação íntima ou romântica com o ativista, atribuindo parte dos rumores a diferenças culturais, como o costume brasileiro de maior proximidade física.
Até o momento, não há registro de queixas formais, processos judiciais ou denúncias policiais contra Ávila relacionadas ao caso. A polêmica, no entanto, continua sendo usada tanto por críticos do ativismo pró-Palestina — que a veem como sintoma de “ativismo performático” — quanto por seus defensores, que a consideram uma tentativa de desqualificar a missão.


