Eliana Pereira Ignacio
Olá, meus caros leitores, na semana passada, iniciamos juntos uma caminhada diferente. Uma minissérie voltada às almas cansadas, aos corações sobrecarregados e às pessoas que aprenderam a sobreviver por tanto tempo, que quase se esqueceram de como simplesmente respirar sem culpa. Falamos sobre descanso emocional. Sobre a coragem silenciosa de reconhecer limites.
Sobre aqueles dias em que a alma não precisa lutar… apenas descansar. E talvez exista algo muito importante que nasce justamente depois desse descanso: a capacidade de voltar a sentir pequenas alegrias. Porque a verdade é que o sofrimento emocional não rouba apenas a energia das pessoas. Muitas vezes, ele rouba também a capacidade de perceber beleza na vida. E esse é um dos sinais mais silenciosos do adoecimento emocional.
Na psicologia clínica, observamos que pessoas emocionalmente sobrecarregadas começam, aos poucos, a funcionar no automático. Continuam trabalhando, cuidando dos filhos, cumprindo responsabilidades, respondendo mensagens, resolvendo problemas…, mas internamente deixam de sentir prazer nas pequenas experiências do cotidiano.
A vida vai ficando sem cor. O café perde o sabor. As músicas deixam de tocar por dentro. As risadas acontecem, mas já não aquecem da mesma maneira. O pôr do sol passa despercebido.
Até os momentos de descanso parecem não descansar mais. E talvez uma das partes mais difíceis da ansiedade, da depressão e do burnout seja justamente essa desconexão silenciosa com as pequenas alegrias da vida. Porque o cérebro humano não foi criado apenas para sobreviver. Ele também necessita de experiências de prazer, leveza, segurança e presença emocional para permanecer saudável. Isso é ciência. Mas também é humanidade.
Pequenos momentos têm um impacto muito maior na saúde mental do que imaginamos. Um banho tranquilo depois de um dia difícil. O cheiro da chuva chegando. Uma música antiga tocando inesperadamente. O silêncio da casa depois de um dia agitado. Uma conversa leve. O cheiro do café quente pela manhã. O abraço sincero de alguém que nos faz sentir seguros. São experiências aparentemente simples… mas emocionalmente reguladoras.
O cérebro humano possui mecanismos neurológicos ligados ao prazer, à memória afetiva e à sensação de segurança emocional. Quando vivemos apenas em estado de alerta, preocupação e sobrevivência, nosso organismo começa lentamente a esquecer como acessar sensações de bem-estar. E talvez por isso, muitas vezes, a terapia não ensine apenas alguém a enfrentar dores. Às vezes, a terapia ajuda a pessoa a reaprender a sentir prazer na vida. E isso é profundamente emocionante. Porque existem pacientes que chegam ao consultório sem perceber que já não conseguem mais sentir alegria nas coisas pequenas.
Não porque sejam ingratos. Não porque sejam frios. Mas porque estão emocionalmente exaustos. O excesso de preocupação adoece os sentidos emocionais. A mente cansada não consegue contemplar. A alma sobrecarregada não consegue desacelerar. E o coração ferido frequentemente desaprende a descansar em momentos simples.
Por isso, recuperar pequenas alegrias também faz parte do processo terapêutico. Muitas vezes, a cura começa em coisas aparentemente pequenas:
- voltar a ouvir músicas;
- caminhar sem pressa; · cuidar de uma planta; ·
- rir sem culpa; · cozinhar algo de que gosta;
- sentir o vento no rosto;
- permitir-se viver um momento sem transformá-lo em obrigação ou desempenho.
Talvez pareça pouco para quem olha de fora. Mas para uma mente emocionalmente cansada, isso pode representar o início de um reencontro consigo mesma. Vivemos em uma sociedade que constantemente nos ensina que felicidade precisa ser grandiosa. Como se a vida só tivesse valor em grandes conquistas, grandes mudanças, grandes momentos e grandes vitórias.
Mas a saúde mental quase nunca se reconstrói nos extremos. Ela costuma reaparecer nos detalhes. Na pausa. Na leveza. No afeto. Na simplicidade. Mas na capacidade de ainda sentir beleza nas pequenas coisas.
“Este é o dia que o Senhor fez; regozijemo-nos e alegremo-nos nele.”
Salmos 118:24 Até a próxima semana
Eliana Pereira Ignacio é Psicóloga, formada pela PUC – Pontifícia Universidade Católica – com ênfase em Intervenções Psicossociais e Psicoterapêuticas no Campo da Saúde e na Área Jurídica; especializada em Dependência Química pela UNIFESP Escola Paulista de Medicina em São Paulo Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas, entre outras qualificações. Mora em Massachusetts e dá aula na Dardah University. Para interagir com Eliana envie um e-mail para epignacio_vo@hotmail.com ou info@jornaldossportsusa.com


