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Os Estados Unidos registraram 2.318 casos de sarampo até a última quinta-feira, 23, número que já ultrapassa o total de todo o ano de 2025, segundo atualização divulgada nesta sexta-feira pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). Com mais cinco meses pela frente, 2026 se consolida como o pior ano da doença no país desde 1991.
Em 2025, os EUA contabilizaram 2.289 infecções — o pior resultado em mais de três décadas. Agora, grandes surtos na Carolina do Sul, em Utah e no Arizona, além de focos menores em outros Estados, impulsionam a alta. Em novembro, autoridades sanitárias internacionais se reunirão para avaliar se os EUA e o México perderam o status de países livres de sarampo. Os americanos eliminaram a transmissão local da doença em 2000, graças a elevadas taxas de vacinação, que, no entanto, caíram nos últimos anos abaixo dos 95% necessários para impedir surtos.
Especialistas alertam que os números oficiais subestimam a verdadeira extensão da propagação. Parte das pessoas infectadas não procura atendimento médico, e o vírus — um dos mais contagiosos conhecidos — encontra terreno fértil em comunidades com baixa cobertura vacinal. A taxa nacional de imunização contra sarampo, caxumba e rubéola entre alunos do jardim de infância recuou de 95,2% no ano letivo 2019-2020 para 92,5% em 2024-2025, mas em alguns bolsões a cobertura é ainda menor.
Em Utah, onde o surto já dura mais de um ano, mais de 700 pessoas adoeceram, de acordo com o departamento estadual de saúde. Modelagens matemáticas e análises genéticas sugerem, porém, que o foco na fronteira com o Arizona pode ser três a quatro vezes maior do que o registrado oficialmente, afirmou a epidemiologista estadual Leisha Nolen.
Na Carolina do Sul, epicentro do maior surto em 35 anos, o total de 997 casos também é considerado subestimado, embora o departamento de saúde não consiga precisar a diferença. “A subcontagem é impossível de saber e pode variar durante um surto”, disse o diretor interino Brannon Traxler.
As hospitalizações, que poderiam servir de parâmetro, não são de notificação obrigatória em todos os Estados, o que agrava a lacuna de dados. Damon Toth, matemático aplicado da Faculdade de Medicina da Universidade de Utah, observa que um “padrão-ouro” de gravidade ajudaria a calibrar as estimativas.
Texas ainda calcula impacto do surto de 2025
No Texas, pesquisadores avaliam que o surto de 2025 pode ter sido quase o dobro dos 762 casos confirmados. Rémy Pasco, epidemiologista matemático da Universidade do Colorado Boulder, destaca que, sem cobertura vacinal de 95%, “simplesmente não há muito que se possa fazer em relação ao sarampo depois de tê-lo”.
O epidemiologista-chefe do Estado, Varun Shetty, reforça que a contagem oficial “é quase sempre uma subestimação”, pois depende da disposição das pessoas em se testar e compartilhar informações. Em março de 2025, 182 casos prováveis entre menores no condado de Gaines — epicentro do surto — não foram confirmados por falta de dados. O total confirmado no condado ficou em 414. Shetty prevê novos casos e surtos enquanto houver bolsões desprotegidos. “É realmente crítico, não só para as pessoas individuais, mas para as comunidades, ter uma elevada cobertura vacinal”, afirmou.
Para Mark Roberts, diretor aposentado do Laboratório de Dinâmica de Saúde Pública da Universidade de Pittsburgh, o maior prejuízo recai sobre os “espectadores inocentes” — bebês, pessoas imunocomprometidas e aqueles que não desenvolvem imunidade robusta mesmo vacinados. Segundo modelagens de sua equipe, esses grupos sofrem o impacto mais pesado dos surtos.
Roberts compara a recusa vacinal a dirigir sem freios: “Não vacinar seu filho é como dizer ‘não quero que meu carro tenha freios’. Porque são outras pessoas que você pode bater. Não és só tu no teu carro.”


