Sergio Sarro
Isso significa que, atualmente, uma em cada duas pessoas no país está inadimplente — uma realidade que revela não apenas dificuldades individuais, mas um grave problema econômico e social que afeta toda a sociedade.
Dados da Serasa, referentes a abril de 2026, mostram que 50,81% dos adultos brasileiros estão inadimplentes, índice 13,87% maior do que o registrado em abril de 2024. O número é um sinal claro de que o orçamento das famílias está cada vez mais pressionado e de que milhões de brasileiros lutam diariamente para equilibrar suas finanças.
A situação é preocupante: o país chegou a 83,3 milhões de inadimplentes em abril de 2026, um crescimento de 13,46% em relação a abril de 2024, quando o Brasil registrava 73,42 milhões de pessoas com contas atrasadas. O valor médio das dívidas por pessoa chega a R$ 6.814,39, enquanto cada débito tem valor médio de R$ 1.654,74. O estoque total das dívidas já ultrapassa R$ 560 bilhões, evidenciando os efeitos do uso constante de crédito caro e da falta de planejamento financeiro de longo prazo.
Mas por trás desses números existem histórias reais.
São famílias que perderam o controle das finanças, trabalhadores que comprometem boa parte do salário apenas com juros e empresários que veem o consumo diminuir mês após mês. Em muitos lares brasileiros, a dívida deixou de ser uma exceção e passou a fazer parte da rotina.
Na prática, o que mais observo como educador financeiro é que grande parte desse problema não está relacionada apenas à falta de renda. Muitas vezes, a origem está na ausência de orientação financeira e no uso frequente de linhas de crédito com juros elevados — como cartão de crédito, cheque especial e parcelamentos longos —, muitas vezes contratados sem análise adequada da capacidade de pagamento.
Esse comportamento faz com que uma parcela significativa da renda mensal seja destinada apenas ao pagamento de juros, dificultando a redução efetiva das dívidas e prolongando o ciclo de endividamento.
O problema da inadimplência no Brasil já deixou de ser apenas financeiro — ele se tornou social.
Na minha visão, uma das soluções mais consistentes para reduzir a inadimplência no longo prazo é a inclusão da educação financeira comportamental nas instituições de ensino públicas e privadas, alcançando todas as idades e etapas da formação.
A proposta é que a educação financeira seja trabalhada de forma lúdica e transversal nas disciplinas da grade escolar, permitindo que crianças e jovens desenvolvam desde cedo uma relação mais consciente com o dinheiro. Ainda melhor seria a criação de uma disciplina específica de educação financeira, dedicada exclusivamente ao tema.
Além de dialogar com representantes do poder público municipal, estadual e federal, também tenho buscado o apoio do setor empresarial para fortalecer essa iniciativa.
A inadimplência elevada não afeta apenas as famílias, mas toda a economia. Milhares de consumidores deixam de comprar, as empresas vendem menos e milhões de reais deixam de circular no comércio, afetando diretamente o ritmo de crescimento econômico.
Segundo Reinaldo Domingos, PhD em Educação Financeira e presidente nacional da ABEFIN, sair da inadimplência exige estratégia, disciplina e consciência financeira.
> “A inadimplência é consequência de decisões financeiras tomadas sem planejamento. Para mudar esse cenário, é essencial que a pessoa conheça sua realidade financeira, organize suas dívidas e compreenda os juros envolvidos.”
Quando o consumidor passa a pagar o valor principal das dívidas — e não apenas os juros —, inicia-se um processo real de recuperação financeira.
Sair da inadimplência exige organização, disciplina e consciência financeira. O primeiro passo é conhecer a própria realidade financeira, levantar todas as dívidas, entender as taxas de juros e identificar exatamente quanto entra e quanto sai todos os meses.
Despesas essenciais, como moradia, energia elétrica e água, devem ser preservadas, enquanto dívidas com juros elevados precisam ser tratadas com prioridade.
Outro passo fundamental é o controle rigoroso dos gastos. Registrar todas as despesas por pelo menos 30 dias, inclusive os pequenos gastos do cotidiano, ajuda a identificar desperdícios e abrir espaço no orçamento para a regularização das dívidas.
A negociação com credores deve ser feita somente após esse diagnóstico financeiro. Saber exatamente quanto é possível pagar evita acordos que não se sustentam e novos atrasos.
Em alguns casos, concentrar as dívidas em uma única linha de crédito com juros menores pode reduzir a pressão financeira e facilitar a quitação gradual. Quando não há possibilidade imediata de negociação, formar uma pequena reserva financeira pode fortalecer o poder de barganha futura.
Mais importante ainda é refletir sobre os hábitos de consumo e alinhar os gastos aos objetivos de vida, evitando novos ciclos de endividamento.
Renegociar uma dívida é como tomar um analgésico: alivia a dor, mas não resolve a causa do problema. Em um país onde metade da população adulta está inadimplente, a educação financeira deixa de ser apenas um diferencial e passa a ser uma necessidade urgente. Porque o problema não começa na dívida. Ele começa muito antes, na ausência de orientação sobre como lidar com o dinheiro.
E enquanto o Brasil continuar ensinando as pessoas a consumir, mas não a administrar o que têm, o ciclo do endividamento continuará se repetindo.
Sergio Sarro
Contador, Educador Financeiro e Presidente Estadual da ABEFIN em Mato Grosso
Fonte: https://www.olhardireto.com.br/artigos/artigo-41
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