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Nova York — Um imigrante albanês arrancou o próprio dente com as mãos devido à dor insuportável após meses sem tratamento em um centro de detenção de imigrantes no Novo México. Uma hondurenha, mãe de duas crianças, foi hospitalizada por problemas cardíacos depois de ter medicamentos para pressão arterial negados na Flórida. Um venezuelano viu a perna inchar e ganhar tons roxos por bactéria necrosante, após funcionários de uma instalação em Vermont ignorarem consulta médica agendada.
Esses são alguns dos casos documentados em centenas de ações judiciais movidas por detentos em pelo menos 33 estados americanos. Segundo investigação da KFF Health News e da Associated Press (AP), os centros de detenção de imigração do governo federal estão falhando sistematicamente em oferecer cuidados médicos adequados. Detentos relatam interrupção ou ausência total de medicamentos para hipertensão, diabetes, depressão, epilepsia, Parkinson e HIV. Pedidos de ajuda ficam sem resposta por semanas. Níveis de açúcar no sangue disparam, infecções se agravam e cânceres permanecem sem diagnóstico. Houve colapsos e convulsões.
O sistema prisional e de detenção de imigrantes nos Estados Unidos há décadas enfrenta dificuldades para atender às necessidades médicas da população sob sua custódia. Mas a pressão aumentou drasticamente desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca. Em meados de janeiro, mais de 75 mil imigrantes estavam detidos pela Immigration and Customs Enforcement (ICE), ante cerca de 40 mil um ano antes.
A análise de milhares de processos de habeas corpus abertos desde a segunda posse de Trump — que contestam a legalidade da detenção pela ICE — oferece um raro vislumbre das condições relatadas pelos próprios detidos, muitas vezes sob pena de perjúrio. Repórteres entrevistaram mais de 50 detentos, familiares e advogados.
Mortalidade recorde: a custódia da ICE é a mais letal em duas décadas
A custódia da ICE tornou-se mais letal do que em duas décadas. Um estudo publicado na revista JAMA em abril de 2026 analisou 22 anos de dados e concluiu que a taxa de mortalidade no ano fiscal de 2026 (parcial) atingiu 88,9 por 100 mil pessoas-ano — o maior patamar desde 2004, quando chegou a 127,7. Para comparação, a taxa era de apenas 13,0 em 2023.
Em 2025, foram registradas entre 31 e 33 mortes em custódia da ICE, o maior número anual em mais de 20 anos. Em 2026, o ritmo se acelerou: até meados de março, o total desde o início do segundo mandato de Trump já superava 46 óbitos, com suicídios em patamar inédito. Pesquisadores e reportagens indicam que, em alguns períodos, uma morte ocorria a cada quatro a seis dias. Muitas delas envolviam condições tratáveis, como complicações cardiovasculares, infecções e piora de doenças crônicas preexistentes.
O Departamento de Segurança Interna (DHS) reportou 51 mortes desde janeiro de 2025. Cerca de 70% dos detidos não têm condenação criminal; seus processos são civis. O aumento da população carcerária — que superou 70 mil pessoas — não explica sozinho o salto na mortalidade: a taxa ajustada por habitante também disparou.
O KFF Health News e a AP enviaram questionamentos ao DHS seis dias antes da publicação, sem obter resposta. O então oficial médico interino do departamento, Sean Conley, havia declarado anteriormente que a política é oferecer “cuidados médicos oportunos e adequados” desde o momento da entrada na custódia da ICE, e que o governo recruta profissionais para manter padrões elevados. “Este é um atendimento melhor e mais responsivo do que muitos desses estrangeiros tiveram em toda a vida”, afirmou.
Instalações individuais e empresas privadas de prisões que responderam às solicitações afirmaram seguir os padrões da ICE e prestar atendimento quando necessário. Algumas disseram desconhecer as alegações específicas dos processos; outras culparam os próprios detentos por falhas no cuidado.
“Jamais vi tamanha desconsideração ou negligência médica em lugar algum”, escreveu Vardan Gukasian, dissidente político e ex-paramédico que passou anos preso na Armênia, em declaração judicial de março. Ele permaneceu 13 meses detido em Henderson, Nevada, apesar de problemas de saúde. Quando apresentou sintomas de hipertensão descontrolada — tontura, sangramento nasal e dor de cabeça —, seu companheiro de cela bateu na porta pedindo ajuda. Como não houve resposta, todo o pavilhão fez o mesmo. Gukasian foi hospitalizado naquele dia.
Casos graves e respostas oficiais
Em outro episódio, um guatemalteco de 48 anos, que vivia nos EUA havia mais de duas décadas, sofreu ferimento ao ser algemado durante transferência para o Stewart Detention Center, na Geórgia. A lesão infeccionou com E. coli porque ele dormiu no chão de concreto sujo, perto de vasos sanitários vazando. Funcionários demoraram a atendê-lo até que ele desmaiou e foi levado a um hospital a uma hora de distância, onde médicos disseram que ele quase perdeu a perna esquerda. A empresa CoreCivic, que administra o local, afirmou não ter registros do caso.
O homem, pai de seis filhos, foi solto em outubro e obteve residência permanente, mas diz não saber se conseguirá voltar ao trabalho na construção civil devido às sequelas.
Advogados e detentos relatam negação até de cuidados básicos: gaze para ferida aberta no pé, acompanhamento pré-natal em gravidez de risco, travesseiro para alívio de câncer estomacal avançado ou absorventes para sangramento pós-parto.
A juíza federal Benita Pearson, de Ohio, comentou em audiência: “Gostaria de acreditar que o governo tem o melhor interesse das pessoas que mantém detidas. Se alguém não consegue ver por perda dos óculos, isso deve ser corrigido”.
Especialistas como Dora Schriro, ex-funcionária da ICE e assessora da Ordem dos Advogados Americana, lembram que a jurisprudência exige tratamento equivalente ao de presos comuns. Na prática, porém, há ampla discricionariedade e variação de padrões. Detentos são frequentemente transferidos sem aviso, interrompendo tratamentos — como uma salvadorenha que ficou uma semana sem remédios para HIV ao ser movida do Colorado para Wyoming.
Mesmo ordens judiciais nem sempre são cumpridas. Um juiz da Califórnia determinou que um detento com sinais de câncer de próstata fosse levado a especialista; os registros mostram que o exame não ocorreu, atribuído a “erro interno de agendamento”.
Advogados relatam uma “indiferença descarada” a problemas evidentes. “Antes era possível pressionar o governo para fazer o certo. Agora, praticamente tudo exige processo judicial”, disse Brian Hoffman, que representa um detento com glaucoma grave que teme perder completamente a visão.
A ofensiva de deportações em massa de Trump — que inclui prisões em check-ins rotineiros, blitze de trânsito, residências e até hospitais — atingiu centenas de milhares de pessoas. A investigação expõe as tensões de um sistema que, sob pressão política por maior rigor migratório, enfrenta questionamentos crescentes sobre o custo humano de suas operações.


