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O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, afirmou nesta terça-feira (5) que as universidades americanas de elite estão vendendo uma “farsa” (bill of goods) a jovens estudantes, deixando-os sobrecarregados com dívidas elevadas e com perspectivas de carreira limitadas. Segundo ele, essa frustração ajuda a explicar a composição atual da base do Partido Democrata.
Em entrevista ao programa The Ingraham Angle, da Fox News, Vance declarou:
“A base do Partido Democrata hoje é composta por pessoas em mobilidade descendente, hiperprogressistas e bem-educadas. Pessoas que, eu acho, foram vendidas uma farsa pelas universidades, têm muitas dívidas, mas não têm um bom emprego para mostrar por isso.”
Em outro trecho, reforçou: “Muitas universidades venderam a esses jovens uma farsa. Deram-lhes muita dívida. Não lhes deram habilidades úteis ou uma credencial útil, e muitos desses jovens estão muito zangados.”
A declaração se insere no discurso reiterado da atual administração americana de críticas às instituições de ensino superior, vistas como excessivamente ideológicas, caras e desconectadas das demandas do mercado de trabalho.
O peso da dívida e o retorno do diploma
Dados oficiais e de instituições de pesquisa confirmam parte do diagnóstico apresentado pelo vice-presidente. A dívida total de empréstimos estudantis nos Estados Unidos alcança cerca de US$ 1,7 trilhão a US$ 1,87 trilhão em 2026, afetando mais de 44 milhões de pessoas. Quase metade dos formandos de bacharelado da turma de 2024 deixou a universidade com dívida média próxima de US$ 30 mil.
Estudos do College Board e de centros como o Georgetown University Center on Education and the Workforce mostram, no entanto, que o diploma de bacharel continua, em média, a gerar retorno positivo. Graduados ganham aproximadamente 60% a mais do que quem possui apenas ensino médio e apresentam taxas de desemprego significativamente menores. O custo do curso costuma ser recuperado até meados dos 30 anos de idade.
A variação, porém, é grande conforme a área de formação. Cursos de engenharia, ciência da computação e saúde apresentam retornos elevados. Já humanidades, artes e algumas ciências sociais frequentemente resultam em salários iniciais baixos e, em certos casos, retorno negativo quando se considera o endividamento. Há também indícios de aperto no mercado de trabalho para recém-formados, com aumento do desemprego entre bacharéis jovens e crescimento do subemprego.
Mudança na base eleitoral democrata
Pesquisas do Pew Research Center e análises eleitorais das últimas duas décadas documentam uma inversão de classe no eleitorado americano. Graduados universitários passaram a inclinar-se fortemente para o Partido Democrata, enquanto eleitores sem diploma migraram em direção aos republicanos.
Um segmento específico — jovens com diploma superior, muitas vezes de instituições de prestígio, que enfrentam rendas medianas ou baixas e carregam dívidas significativas — tem ganhado destaque em análises recentes. Esse perfil aparece de forma desproporcional em grupos progressistas e em organizações como a Democratic Socialists of America (DSA). Reportagens e livros publicados entre 2025 e 2026, como o trabalho do jornalista Noam Scheiber, descrevem a frustração econômica de parte dessa geração como combustível para radicalização à esquerda.
Ainda assim, a base democrata permanece mais ampla, englobando minorias raciais sem diploma universitário, mulheres de renda mais elevada e setores urbanos tradicionais. Nem todos os eleitores bem-educados e progressistas se encontram em situação de mobilidade descendente.
A declaração de Vance captura uma realidade parcial, mas documentada: o sistema universitário americano gera dívidas elevadas para parcela relevante dos estudantes; nem todos os diplomas entregam o retorno econômico prometido; e uma fatia da base progressista jovem é composta por graduados frustrados com expectativas não atendidas formadas basicamente em áreas “humanas”.
A generalização de que as universidades de elite “vendem uma farsa” a todos os estudantes e de que esse grupo define integralmente a base do Partido Democrata simplifica um quadro mais complexo. O diploma de nível superior continua, em média, a representar um investimento econômico positivo. No entanto, o custo elevado, a falta de transparência sobre o retorno por área de formação e a expansão de cursos de baixo valor de mercado — aqueles que formam profissionais com salários mais baixos — constituem problemas reais e crescentes.


