JUNOT
A dois meses das eleições, o Brasil conseguiu o que poucos países no mundo conseguem: brigar ao mesmo tempo com os Estados Unidos e com a Argentina. No mesmo dia. Rebaixou as relações com Buenos Aires para o nível de encarregado de negócios e viu a embaixadora em Washington ter o visto revogado pelos americanos. Especialistas chamam de “inédito”. É. Inédito e ridículo.
Rubens Barbosa, homem que já representou o país em Washington e Londres, diz que nunca viu crise assim com os Estados Unidos em toda a República. Com a Argentina, o rebaixamento é o pior desde os anos 70. Milei chama Lula de ladrão e corrupto. O Itamaraty responde com formalidade ofendida. Trump joga pesado com vistos e agrément. Brasília reage com notas indignadas. Tudo muito teatral. Tudo muito pouco eficaz.
Mas o problema não começa nem termina em Washington e Buenos Aires. O Brasil já vinha se especializando em ofender aliados históricos com declarações que misturam espontaneidade presidencial e desconhecimento histórico.
Com Israel, a comparação entre a guerra em Gaza e o Holocausto foi de uma desproporção que faria qualquer historiador sério corar. O Holocausto não é metáfora. É o projeto industrial de extermínio de um povo. Transformá-lo em figura de linguagem política é ofensa à memória e diplomacia de quinta categoria. Resultado: Lula persona non grata, embaixadores rebaixados, relações congeladas. O mesmo país que em 2014 já tinha sido chamado de “anão diplomático” por Yigal Palmor voltou a provar o título.
Com o Paraguai, a coisa é quase cômica se não fosse triste. Lula decide explicar a Guerra da Tríplice Aliança dizendo que “um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil”. Mais de 150 anos depois, aquela guerra continua sendo ferida aberta em Assunção. População dizimada, país destruído, trauma coletivo. O presidente brasileiro trata o assunto como se estivesse comentando um jogo de futebol de várzea. O Congresso paraguaio protesta, o embaixador é convocado, o Itamaraty corre atrás do prejuízo dizendo que “foi tirado de contexto”. Clássico.
O padrão é claro. O Brasil tem tamanho de gigante e comportamento de anão. Economia relevante, território continental, pretensão de liderança regional… e diplomacia que oscila entre o gesto grandiloquente e o tropeço constrangedor. Declarações que inflamam em vez de desarmar. Posições que isolam em vez de construir influência. Ideologia doméstica exportada como se fosse política externa.
Isso não é diplomacia. É improvisação de quem confunde microfone com estratégia. O Itamaraty, que já foi referência de profissionalismo, hoje passa boa parte do tempo apagando incêndios causados pelo próprio chefe de Estado.
Resta saber com quem o Brasil vai se indispor amanhã. Porque o anão diplomático, quando entra em campo, raramente sai sem deixar um novo adversário pelo caminho. E o mundo, ao contrário do que alguns ainda acreditam, não está obrigado a levar a sério quem insiste em provar, dia após dia, que o título de 2014 continua atualíssimo.


