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Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos bancaram, em volume absoluto, a maior parte da ajuda oficial ao desenvolvimento e da assistência humanitária global. Foi escolha estratégica — soft power, contenção de rivais, estabilidade de mercados e rotas —, não é e nunca foi uma obrigação moral eterna. Em 2025, com o desmantelamento da USAID e os cortes profundos, essa arquitetura sofreu o maior choque de sua história. Projeções de mortalidade adicional circularam amplamente. O sistema internacional de saúde e emergência, construído em grande medida sobre recursos americanos, revelou sua fragilidade.
A pergunta que o debate evita é simples: por que a conta continua sendo atribuída quase exclusivamente a Washington?
Nenhuma nação é obrigada a financiar indefinidamente a saúde, a nutrição e a estabilização de terceiros países. Soberania inclui o direito de reavaliar gastos externos. Quem critica os Estados Unidos por “abandonar” o papel de provedor global costuma ser o mesmo que, por décadas, rejeitou a ideia de que os EUA fossem “a polícia do mundo”. A incoerência é evidente. Quando a presença americana gerava ordem relativa — proteção de rotas marítimas, combate a redes criminosas transnacionais, resposta a epidemias —, a crítica era de unilateralismo. Quando a presença se retrai, a crítica vira omissão. Em ambos os casos, o crítico permanece de braços cruzados.
Países e blocos que se apresentam como contrapontos de influência global têm, por lógica, responsabilidades correlatas. A China é celebrada como potência em ascensão e alternativa ao modelo ocidental. Seu volume de ajuda oficial permanece uma fração do que os EUA gastavam; o modelo privilegiado é o de empréstimos e infraestrutura com retorno estratégico, não doações humanitárias de larga escala em saúde e emergência. Há ações pontuais — doações de alimentos, apoio limitado a programas de HIV, ajuda em desastres —, mas nada que se aproxime de preencher o vácuo estrutural. Quem reivindica liderança mundial não pode se limitar a ocupar espaços comerciais e diplomáticos enquanto terceiros pagam a conta da estabilização.
O mesmo vale para o bloco europeu. Após pressões por aumento de gastos em defesa, vários dos maiores doadores tradicionais reduziram a assistência oficial. A retórica de solidariedade convive com ajustes orçamentários domésticos. Países árabes ricos — Arábia Saudita, Emirados, Catar — aumentaram participação em alguns contextos humanitários, especialmente no Oriente Médio e partes da África, e ganharam peso relativo. Ainda assim, o volume total e a cobertura global não compensam a retração americana. O Brasil, por sua vez, poderia exercer influência regional concreta no subcontinente: coordenação contra organizações criminosas transnacionais que operam nas fronteiras, apoio à estabilidade em países vizinhos e assistência humanitária seletiva. Até aqui, a ambição de protagonismo sul-americano não se traduziu em arquitetura de responsabilidade proporcional.
O discurso que exige dos Estados Unidos a manutenção indefinida do papel de bom samaritano é cômodo. Ele floresce na boca de quem, desde 1945 até 2025, beneficiou-se de um sistema financiado majoritariamente por um único ator sem cobrar-lhe contas permanentes de eficiência ou alinhamento de interesses. Quando esse ator decide realinhar prioridades — como qualquer democracia soberana pode fazer —, abre-se espaço. Qualquer nação ou bloco que deseje a influência correspondente tem agora a oportunidade de ocupá-lo: financiar saúde, proteger rotas, combater crime organizado e responder a crises humanitárias. A ausência de fila para essa função revela mais sobre as preferências reais do sistema internacional do que sobre a “crueldade” de uma decisão americana.
A ordem internacional não se sustenta apenas com denúncias. Sustenta-se com quem está disposto a pagar o custo da estabilização. Enquanto os críticos se limitam a apontar o dedo para Washington, o vácuo permanece — e as consequências, boas ou más, serão distribuídas conforme a disposição de cada um de assumir a parte que lhe cabe.


