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A discussão sobre uma possível intervenção militar dos Estados Unidos no Brasil por causa do PCC e do Comando Vermelho parece deslocar o debate para um cenário que, hoje, não encontra respaldo nos fatos. A declaração do Escudo das Américas não autoriza uma operação militar em território brasileiro. Tampouco Brasil e México fazem parte da coalizão liderada por Donald Trump.
O problema real é menos cinematográfico — e talvez mais importante.
Em 22 de setembro, 14 países latino-americanos acompanharam os Estados Unidos na adoção de medidas contra 24 organizações classificadas por Washington como terroristas, entre elas PCC e Comando Vermelho. O Brasil não participou da reunião. Mais significativo: segundo informações do UOL e da Folha, o Palácio do Planalto e o Itamaraty não sabiam previamente que o documento seria anunciado.
É aqui que a discussão deixa de ser sobre uma improvável invasão e passa a ser sobre inteligência, diplomacia e influência.
Não era necessário que os países consultassem Brasília. Nenhum deles precisava de autorização brasileira para adotar medidas dentro de seus respectivos territórios. O ponto é outro: como uma articulação envolvendo Estados Unidos e 14 governos da região avançou até um anúncio público sem que o Brasil tivesse conhecimento prévio de seu conteúdo?
Há uma circunstância que torna a pergunta ainda mais incômoda. A iniciativa não nasceu naquele dia. O Escudo das Américas havia sido lançado em março. O governo brasileiro já conhecia a posição de Washington sobre o PCC e o CV. E, segundo o UOL, havia sinais de que governos como Argentina e Chile apoiavam a ideia desde então.
Portanto, não se trata simplesmente de uma surpresa diplomática produzida por um acontecimento inesperado. Trata-se de descobrir se Brasília acompanhou adequadamente uma movimentação que vinha sendo construída em seu próprio entorno.
Isso não permite concluir, por si só, que os órgãos brasileiros de inteligência tenham cometido uma falha. Mas permite fazer uma pergunta incômoda: se a diplomacia brasileira não sabia, quem deveria saber?
E existe uma segunda pergunta: se sabia de parte da movimentação, por que não conseguiu antecipar seu resultado?
A resposta importa porque o episódio revela algo maior que a classificação de duas facções brasileiras. Os Estados Unidos estão construindo uma arquitetura regional de segurança da qual o Brasil e o México ficaram fora. Trump apresentou o grupo como uma frente comum contra os cartéis e afirmou que os países agora não estão mais “por conta própria”.
É uma mudança de posição política.
Brasília continua sendo a maior potência econômica e territorial da América Latina. Mas tamanho não é sinônimo de liderança. Liderança exige capacidade de formar coalizões, antecipar movimentos e convencer vizinhos antes que outros atores o façam.
O governo Lula respondeu defendendo a soberania e a cooperação internacional. Na ONU, afirmou que o Brasil não precisa de porta-aviões para combater o crime, mas de cooperação contra armas e lavagem de dinheiro.
É uma posição legítima. Mas soberania também é capacidade de perceber o que acontece ao redor antes que aconteça.
Por isso, o episódio não deveria ser transformado em uma narrativa de invasão americana. O risco concreto, neste momento, não é uma repetição de 1964 conduzida por Washington. É algo mais silencioso: o Brasil descobrir que parte de seus vizinhos passou a discutir segurança regional em outra mesa — e só tomar conhecimento quando a declaração já estiver assinada.
Essa é uma questão de inteligência. É uma questão de diplomacia. E, sobretudo, é uma questão de influência.


