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BRASÍLIA — Há momentos em que a política deixa de revelar aquilo que os homens dizem ser e começa a revelar aquilo que fazem quando são colocados diante do risco.
O debate da TV Globo que deveria ter reunido os candidatos à Presidência na noite de quinta-feira (1º) não aconteceu. Lula havia decidido não comparecer e escolheu, para o mesmo horário, uma entrevista no Flow Podcast. O TSE determinou que a emissora não exibisse o púlpito vazio reservado ao presidente nem permitisse perguntas dirigidas a ele. Depois, o ministro Gilmar Mendes, do STF, determinou a inclusão de Renan Santos no debate. Flávio Bolsonaro, que havia confirmado presença, desistiu. Diante da sucessão de decisões e da mudança das regras às vésperas do programa, a Globo cancelou o encontro.
Cada personagem tem sua explicação. Lula considera o formato dos debates pouco produtivo. Flávio atribuiu sua desistência à interferência da Justiça Eleitoral. A Globo falou em insegurança jurídica. O Judiciário apresentou fundamentos jurídicos para suas decisões. Nenhuma dessas explicações precisa ser falsa para que outra pergunta permaneça.
O que acontece quando os homens que disputam o poder deixam de enfrentar seus adversários?
À primeira vista, nada de extraordinário. A política sempre foi feita também de cálculo. Quem lidera uma disputa pode avaliar que o confronto oferece mais riscos do que benefícios. Quem está atrás pode desejar exatamente o contrário. O prudente evita a armadilha; o temerário entra nela. Às vezes, a diferença entre prudência e medo só aparece depois do resultado. Mas há uma diferença entre vencer uma discussão e evitar que ela aconteça.
O confronto é incômodo porque retira do político o controle da própria narrativa. No palco, o adversário pergunta. O tempo limita. A resposta precisa ser imediata. Uma frase mal colocada pode perseguir uma campanha inteira. É mais confortável escolher a entrevista, o podcast, a transmissão própria, o ambiente em que a pergunta chega previamente cercada pelo contexto desejado.
O poder gosta de falar. Nem sempre gosta de responder.
E talvez esteja aí a questão mais importante desse episódio.
Não é possível afirmar, apenas pela ausência, que alguém tenha “fugido” do confronto. Também seria simplista atribuir exclusivamente aos candidatos o cancelamento do debate. As decisões judiciais tiveram efeitos concretos sobre um programa que já possuía regras previamente estabelecidas, e a emissora decidiu que não poderia realizá-lo nas novas condições.
Mas também seria ingênuo fingir que a ausência não produz consequências políticas.
Uma democracia não se sustenta apenas pelo direito de escolher. Precisa também de condições para que o eleitor veja os homens que pretendem governá-lo submetidos àquilo que o poder normalmente tenta evitar: a pergunta que não escolheram, o adversário que não controlam e a resposta que não tiveram tempo de preparar.
É nesse ponto que o episódio deixa de ser apenas uma disputa entre candidatos, emissora e tribunais.
Há uma questão maior.
Quando um homem pede o poder, aceita também o desconforto que vem com ele?
Porque governar é decidir. E decidir é, inevitavelmente, enfrentar. Quem deseja apenas falar pode escolher o palco. Quem deseja governar precisa aceitar o confronto.
Talvez seja essa a razão pela qual os debates incomodam tanto. Eles devolvem aos candidatos uma condição que a política moderna procura cuidadosamente administrar: a possibilidade de serem contrariados diante de todos.
E há uma ironia nisso.
Quanto mais uma eleição se aproxima da decisão, maior deveria ser a necessidade de confronto entre aqueles que pretendem conduzir o Estado. No entanto, o que o eleitor encontrou na noite que deveria encerrar a temporada de debates foi justamente a ausência dos dois nomes que concentravam a maior atenção da disputa.
Pode-se chamar isso de estratégia.
Pode-se chamar de prudência.
Pode-se chamar de cálculo.
Mas talvez a palavra mais importante seja outra: conveniência.
E a política começa a se degradar quando a conveniência dos homens que disputam o poder passa a valer mais do que o direito da sociedade de vê-los confrontados.
Uma eleição pode sobreviver sem um debate.
Uma democracia também.
Mas nenhuma democracia permanece saudável por muito tempo quando seus governantes aprendem que é possível chegar ao poder sem pagar o preço do confronto.
Os homens podem escolher não enfrentar seus adversários. O que não podem escolher é impedir que a história faça a pergunta por eles.


