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BRASÍLIA — Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno da eleição presidencial de 2026 à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e chega à segunda rodada em posição mais favorável do que indicavam as pesquisas da véspera. Com a apuração avançada, o senador mantinha a liderança, enquanto Lula aparecia em segundo, confirmando a disputa entre os dois para o segundo turno, marcado para 25 de outubro.
A vantagem tem significado político além dos números. Lula, que desde 2002 havia terminado na frente em todos os primeiros turnos presidenciais que efetivamente disputou, agora deixa a primeira etapa atrás de um adversário. A última vez em que o petista ficou em segundo lugar em uma eleição presidencial que disputou foi em 1998, quando Fernando Henrique Cardoso venceu no primeiro turno. Em 1989 e 1994, Lula também não foi o primeiro colocado.
Flávio, portanto, não apenas chegou ao segundo turno: foi o candidato mais votado na primeira rodada, algo politicamente relevante para uma campanha que, durante boa parte do período eleitoral, apresentava Lula numericamente à frente ou em empate técnico.
A eleição, contudo, continua aberta. A liderança não representa uma vitória antecipada. Como nenhum dos dois alcançou a maioria absoluta dos votos válidos, os dois candidatos terão agora de buscar os votos dos demais concorrentes e, principalmente, dos eleitores que não se identificam integralmente com nenhum dos dois polos.
Um mapa estadual mais favorável à direita
O resultado presidencial veio acompanhado de uma importante mudança no mapa dos governos estaduais. Dezenove estados definiram seus governadores já no primeiro turno. O grupo inclui:
- Acre: Mailza Assis (PP)
- Alagoas: Renan Filho (MDB)
- Amapá: Dr. Furlan (PSD)
- Bahia: Jerônimo Rodrigues (PT)
- Ceará: Elmano de Freitas (PT)
- Goiás: Daniel Vilela (MDB)
- Maranhão: Eduardo Braide (PSD)
- Mato Grosso: Otaviano Pivetta (Republicanos)
- Mato Grosso do Sul: Eduardo Riedel (PP)
- Minas Gerais: Cleitinho Azevedo (Republicanos)
- Pará: Dr. Daniel (Podemos)
- Paraíba: Lucas Ribeiro (PP)
- Paraná: Sérgio Moro (PL)
- Pernambuco: Raquel Lyra (PSD)
- Piauí: Rafael Fonteles (PT)
- Rio Grande do Sul: Luciano Zucco (PL)
- Rondônia: Marcos Rogério (PL)
- Roraima: Arthur Henrique (PL)
- Santa Catarina: Jorginho Mello (PL)
- São Paulo: Tarcísio de Freitas (Republicanos)
- Sergipe: Fábio Mitidieri (PSD)
A relação chega a 19 estados porque alguns resultados foram confirmados ao longo da noite de domingo. Os demais terão segundo turno ou ainda estavam em disputa durante a apuração.
Paraná: Moro conquista o governo
No Paraná, Sérgio Moro (PL) foi eleito governador no primeiro turno, com pouco mais de 50% dos votos válidos. A vitória encerra sua passagem pelo Senado e marca sua primeira eleição para um cargo no Executivo. O ex-juiz da Lava Jato assumirá o governo em janeiro de 2027.
A eleição paranaense também produziu uma mudança importante na representação federal: Filipe Barros (PL) e Deltan Dallagnol (Novo) foram eleitos para o Senado, embora a situação jurídica da candidatura de Dallagnol ainda esteja submetida à Justiça Eleitoral.
O resultado transforma o Paraná em uma das bases políticas mais claramente identificadas com a oposição ao PT no novo cenário nacional.
São Paulo: Tarcísio impõe ampla vantagem a Haddad
Em São Paulo, o resultado foi ainda mais expressivo. Tarcísio de Freitas (Republicanos) foi reeleito no primeiro turno com cerca de 63% dos votos válidos, enquanto Fernando Haddad (PT) ficou na casa dos 36%.
A diferença é particularmente significativa porque São Paulo é o maior colégio eleitoral do país. Tarcísio, que foi ministro da Infraestrutura de Jair Bolsonaro, consolida-se como uma das principais lideranças da direita brasileira e preserva uma máquina política importante para o próximo ciclo eleitoral.
A vitória também teve reflexo no Senado: Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL), ambos ligados ao campo político de Tarcísio, conquistaram as duas cadeiras paulistas em disputa.
A direita avança, mas o Nordeste continua sendo decisivo
O avanço da direita nos estados não eliminou o principal obstáculo à vitória presidencial de Flávio no primeiro turno: a força de Lula no Nordeste.
A região continua sendo o principal núcleo eleitoral do petismo e de seus aliados. Estados como Bahia, Ceará e Piauí mantiveram governos ligados ao PT, enquanto outras administrações ficaram com partidos de centro ou centro-esquerda aliados do campo lulista. Na Bahia e no Ceará, por exemplo, Jerônimo Rodrigues e Elmano de Freitas foram reeleitos pelo PT; no Piauí, Rafael Fonteles obteve uma vitória ampla.
Esse comportamento regional ajudou a impedir que Flávio transformasse sua liderança nacional em uma vitória já no primeiro turno. O Nordeste continua sendo, portanto, o principal território eleitoral de Lula e um dos pontos que podem decidir a segunda rodada.
A questão para Flávio agora é saber até que ponto poderá ampliar sua votação no Sudeste, no Sul e no Centro-Oeste e, simultaneamente, reduzir a vantagem de Lula no Nordeste. A aritmética da segunda rodada será diferente: não haverá mais candidatos intermediários, e cada eleitor terá de escolher entre os dois polos.
Senado fica mais à direita, mas impeachment do STF ainda exige negociação
Outra consequência importante da eleição está no Senado. Dois terços das 81 cadeiras foram renovados neste domingo, e a nova composição deverá ser mais à direita do que a atual. O levantamento do JOTA projetava, antes da votação, 46 senadores classificados no campo da direita para a legislatura que começa em 2027, contra 35 atualmente. A esquerda ficaria com 18 e o centro com 16.
O resultado aumenta consideravelmente o peso da oposição e pode alterar a relação do Congresso com o Executivo e com o Supremo Tribunal Federal.
Há, entretanto, uma diferença fundamental entre ter maioria política e ter votos suficientes para afastar um ministro do STF.
São necessários 41 votos para formar maioria absoluta no Senado e 54 votos — dois terços da Casa — para condenar um ministro do Supremo em processo de impeachment.
Assim, mesmo que a nova direita alcance algo próximo de 46 senadores, ela não terá sozinha os 54 votos necessários para aprovar a condenação de um ministro do STF. Para chegar a esse número, precisará atrair senadores do centro e eventualmente parlamentares classificados como independentes ou de atuação mista.
Isso não significa que o novo Senado será irrelevante para o Supremo. Pelo contrário. Uma bancada de 46 senadores teria força para controlar a agenda política da Casa, influenciar comissões, participar da escolha da presidência do Senado e exercer pressão institucional muito maior sobre ministros da Corte.
O cenário também ganha importância porque o Senado é responsável por aprovar as indicações presidenciais para o STF e por processar e julgar ministros da Corte em casos de crimes de responsabilidade.
O voto dos brasileiros no exterior
Fora do Brasil, o comportamento eleitoral foi diferente. Os brasileiros residentes no exterior votam exclusivamente para presidente, e 918.876 eleitores estavam habilitados em 134 países e 186 cidades. Os Estados Unidos concentram o maior contingente.
Os primeiros resultados mostraram uma disputa dividida. Lula venceu em diversos países da Europa, Ásia e Oceania, enquanto Flávio apresentou desempenhos fortes em países como Japão, Israel, Emirados Árabes Unidos e Filipinas. No Japão, por exemplo, o candidato do PL teve vantagem particularmente ampla.
Nos Estados Unidos, onde vivem comunidades brasileiras numerosas, a votação ganhou uma dimensão política adicional durante a campanha. A presença de brasileiros nos EUA foi tema de debates relacionados à segurança dos locais de votação e ao receio de parte dos eleitores diante das operações migratórias americanas. Boston, Miami e Nova York estavam entre os maiores centros eleitorais brasileiros no país.
Na totalização do exterior, entretanto, Lula mantinha vantagem. Em uma parcial com mais de 62% das seções estrangeiras totalizadas, o petista tinha 52,20% dos votos válidos, contra 38,22% de Flávio.
O resultado internacional tem peso relativamente pequeno na definição matemática da eleição, mas oferece um retrato interessante: o eleitor brasileiro fora do país não reproduziu integralmente o deslocamento observado em partes do eleitorado doméstico.
A segunda eleição começa agora
O primeiro turno produziu uma situação inédita para Lula desde o final dos anos 1990: o presidente chega à segunda etapa sem ter sido o candidato mais votado na primeira.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, conseguiu transformar uma candidatura que inicialmente enfrentava dúvidas sobre sua capacidade de representar o campo conservador em uma campanha competitiva e, finalmente, na liderança do primeiro turno.
A vantagem, contudo, é apenas o ponto de partida. O segundo turno será uma disputa essencialmente nova. Lula conserva uma base eleitoral sólida, sobretudo no Nordeste, enquanto Flávio chega fortalecido pelo desempenho nos principais estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste e por uma bancada parlamentar potencialmente mais favorável.
O que estará em jogo em 25 de outubro não será apenas a sucessão presidencial. Os resultados de 4 de outubro indicam que o próximo presidente encontrará um país com governadores e um Congresso mais inclinados à direita, reduzindo a possibilidade de que Brasília continue funcionando com a mesma correlação de forças dos últimos anos.


