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A imigração, tema que ajudou a impulsionar Donald Trump e o Partido Republicano em 2024, começa a produzir um movimento inverso dentro da própria bancada republicana no Senado. Senadores do partido afirmam que a política de deportações do governo ultrapassou o ponto de consenso entre eleitores e pode estar transformando uma vantagem eleitoral em vulnerabilidade.
Em declarações ao The Hill, John Cornyn, do Texas, Mike Rounds, da Dakota do Sul, Thom Tillis, da Carolina do Norte, e Joni Ernst, de Iowa, defenderam uma mudança de foco: priorizar imigrantes que representam ameaça à segurança pública, em vez de concentrar recursos em pessoas que vivem nos Estados Unidos há muitos anos sem outros registros criminais.
Cornyn afirmou que há uma “zona cinzenta” quando o governo começa a deportar pessoas que permaneceram 15 ou 20 anos no país sem incidentes. Rounds disse que a fiscalização deveria se concentrar em quem cometeu crimes além da entrada ou permanência irregular. Tillis foi ainda mais direto ao afirmar que seria preferível deixar alguns imigrantes em situação irregular livres a correr o risco de deter cidadãos ou pessoas legalmente autorizadas a permanecer no país.
A preocupação encontra respaldo em pesquisas recentes. Levantamento nacional da Fox News com 1.211 eleitores registrados, realizado de 11 a 14 de setembro, mostrou que 53% consideravam que a fiscalização migratória do governo havia ido longe demais. Entre esses eleitores, 49% apontaram como problema a escolha dos alvos e 45% disseram que o governo empregava força excessiva.
Outra pesquisa, da NPR/PBS News/Marist, encontrou 41% dos eleitores dizendo que os democratas lidariam melhor com a imigração, contra 38% que escolheram os republicanos. O resultado representa uma mudança em relação à vantagem republicana tradicional no tema.
Entre hispânicos, o desgaste aparece de maneira mais acentuada. Pesquisa NBC News/Telemundo realizada de 21 a 28 de setembro com 800 eleitores hispânicos registrou 27% de aprovação a Trump e 69% de desaprovação. Cerca de sete em cada dez desaprovaram sua condução da imigração, enquanto 59% disseram preferir um Congresso controlado pelos democratas, contra 35% que optaram pelos republicanos.
Há também um problema institucional. Uma investigação da ProPublica identificou mais de 170 cidadãos americanos detidos por agentes de imigração em 2025, embora o próprio governo não mantenha uma contagem nacional desses casos. O levantamento incluiu pessoas detidas durante operações e protestos, e a publicação ressaltou que seu número provavelmente é incompleto.
Os episódios envolvendo os cidadãos Renee Good e Alex Pretti, mortos durante operações federais em Minneapolis, ampliaram a controvérsia e contribuíram para o impasse sobre o financiamento do Departamento de Segurança Interna. O Congresso chegou a enfrentar um bloqueio de 76 dias antes de aprovar recursos para o DHS.
A crítica republicana, entretanto, não equivale a uma rejeição à política de controle migratório. O próprio texto de The Hill registra que os senadores reconhecem os resultados obtidos na fronteira, incluindo a forte redução das entradas ilegais desde o fim do governo Biden. A divergência está no que fazer depois de recuperar o controle da fronteira.
É justamente aí que aparece a contradição política. Para parte dos republicanos, a questão já não é se o governo deve aplicar as leis migratórias, mas onde termina a fiscalização legítima e começa uma política capaz de transformar cidadãos, residentes legais e imigrantes sem histórico criminal em alvos do mesmo aparato repressivo destinado aos infratores mais graves.
O debate também mostra que segurança de fronteira e deportação em massa não são necessariamente sinônimos. A primeira pode ampliar o apoio à aplicação da lei; a segunda, segundo os próprios senadores republicanos, pode estar produzindo uma reação política diferente daquela que o partido esperava.


