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Massachusetts reúne universidades de prestígio, empregos qualificados e uma das economias estaduais mais prósperas dos Estados Unidos. Essa riqueza, porém, não se traduz em segurança financeira para todas as famílias. Uma pesquisa do Federal Reserve Bank de Boston revela que mais de um terço dos domicílios do estado não dispõe de recursos suficientes para cobrir uma despesa emergencial de US$ 400 sem recorrer a empréstimos ou outras formas de endividamento. Entre determinados grupos demográficos, a proporção chega a aproximadamente dois terços.
O levantamento, realizado em 2025 com 5.018 entrevistados, mostra que a vulnerabilidade financeira não pode ser compreendida apenas pela renda mensal. O patrimônio acumulado — incluindo imóveis, poupança, investimentos e outros ativos, descontadas as dívidas — é decisivo para determinar se uma família consegue absorver um imprevisto sem comprometer o orçamento.
A disparidade patrimonial é expressiva. Segundo o estudo Mass ECHOS, do Federal Reserve Bank de Boston, publicado em agosto de 2026, o patrimônio líquido mediano das famílias brancas em Massachusetts é estimado em US$ 549.200, ante US$ 1.200 entre as famílias hispânicas ou latinas e US$ 7.800 entre as famílias negras. No conjunto da população estadual, a mediana chega a US$ 374 mil. Os dados evidenciam profundas diferenças na capacidade de acumular patrimônio, embora as estimativas para os grupos com menor riqueza estejam sujeitas a margens de incerteza.
Esses números não significam que todas as famílias de determinado grupo vivam nas mesmas condições. A mediana indica o ponto central da distribuição, e não a situação de cada indivíduo. Ainda assim, a distância entre os valores evidencia diferenças profundas na capacidade de acumular bens, formar reservas financeiras e transmitir patrimônio às gerações seguintes.
Brasileiros diante dos imprevistos
Os dados desagregados para a Grande Boston permitem dimensionar a situação de comunidades específicas. De acordo com a análise publicada pelo Boston Globe a partir da pesquisa do Fed, 83,7% das famílias haitianas da região não conseguem cobrir uma despesa inesperada de US$ 400 com recursos disponíveis. Entre as famílias brasileiras, o índice é de 47,6%.
A proporção chega a 78,2% entre famílias porto-riquenhas, 67,9% entre as dominicanas e 68% entre as famílias negras. No extremo oposto, 22,5% das famílias do Sudeste Asiático não conseguem arcar com o mesmo gasto.
Os resultados mostram que a vulnerabilidade financeira varia consideravelmente entre as comunidades. Também recomendam cautela na interpretação: os grupos considerados pelo estudo são definidos por critérios demográficos e de origem, não exclusivamente pela condição migratória. Portanto, os números não representam apenas imigrantes recém-chegados, nem permitem concluir que a imigração, por si só, explique as diferenças.
No caso brasileiro, o índice de 47,6% significa que quase metade das famílias da Grande Boston não dispõe de recursos suficientes para enfrentar um gasto relativamente modesto sem recorrer ao crédito ou a outras alternativas. Uma despesa de US$ 400 pode corresponder ao conserto de um eletrodoméstico, à troca de pneus, ao reboque de um automóvel ou a uma consulta médica urgente.
Em uma região de moradia cara, na qual o transporte e o acesso a serviços podem ser indispensáveis para manter o emprego, um imprevisto desse porte pode desencadear uma sequência de dificuldades financeiras.
Renda não é patrimônio
A fragilidade financeira das famílias não decorre necessariamente da falta de trabalho. O problema também está na distância entre o que se ganha e o que é possível acumular depois de pagar moradia, alimentação, transporte, saúde e demais despesas.
Segundo o Departamento de Habitação e Comunidades Habitáveis de Massachusetts, mais de meio milhão de domicílios do estado são chefiados por pessoas nascidas no exterior. Eles representam aproximadamente um quinto do total. Os imigrantes correspondem a cerca de 21% dos moradores da região metropolitana de Boston, mas representam 25% dos trabalhadores e 28% dos proprietários de empresas, de acordo com um estudo citado pelo governo estadual.
A participação econômica, portanto, é expressiva. Isso, entretanto, não garante que os rendimentos sejam suficientes para formar reservas ou adquirir patrimônio. Quase metade dos domicílios chefiados por pessoas nascidas no exterior tem renda familiar inferior a US$ 75 mil anuais, segundo os dados estaduais. Entre os domicílios chefiados por pessoas nascidas nos Estados Unidos, a proporção é de 42%.
O quadro também não é uniforme entre imigrantes. Massachusetts recebe profissionais altamente qualificados, estudantes, empreendedores e trabalhadores de diferentes setores, além de pessoas que chegaram para escapar de crises políticas ou econômicas. Escolaridade, domínio do inglês, situação migratória, tempo de residência, estrutura familiar e ocupação influenciam as oportunidades disponíveis.
Para quem trabalha em serviços, alimentação, construção civil ou cuidados domiciliares, o aumento do custo de vida pode consumir boa parte da renda, mesmo quando há emprego regular. A dificuldade de obter reconhecimento para diplomas e qualificações profissionais adquiridos no exterior também pode limitar o acesso a ocupações mais bem remuneradas.
O resultado é uma diferença entre trabalhar e conseguir avançar economicamente. Uma família pode pagar suas contas na maior parte dos meses e, ainda assim, permanecer vulnerável a uma emergência, sem poupança suficiente para absorver o gasto.
Moradia e educação pesam na formação do patrimônio
A propriedade de um imóvel aparece como um dos fatores associados às maiores diferenças patrimoniais em Massachusetts. Segundo o estudo do Fed, a riqueza líquida mediana das famílias proprietárias de imóveis é de US$ 790.500, contra US$ 1.500 entre as famílias que alugam suas moradias.
A diferença não demonstra, isoladamente, que comprar uma casa seja a solução para todos os problemas financeiros. Proprietários também enfrentam hipotecas, impostos, manutenção e outros custos. Além disso, adquirir um imóvel exige capital inicial e acesso ao financiamento, justamente dois recursos que faltam a muitas famílias com patrimônio reduzido.
Os dados do Censo americano ajudam a dimensionar o custo habitacional. Entre 2020 e 2024, o valor mediano dos imóveis ocupados pelos próprios proprietários em Massachusetts foi estimado em US$ 562.100, enquanto o aluguel bruto mediano chegou a US$ 1.762 mensais. Para famílias que precisam reservar dinheiro para alimentação, transporte, saúde e educação, esses valores reduzem a margem disponível para poupar.
A educação também influencia as oportunidades de mobilidade econômica. Uma formação superior pode abrir caminho para ocupações mais bem remuneradas, mas o acesso à universidade não elimina automaticamente as desigualdades. Estudantes que precisam trabalhar durante os estudos podem levar mais tempo para concluir o curso, acumular dívidas ou ter menos oportunidades de estágio e formação profissional.
Além disso, diplomas obtidos no exterior nem sempre são reconhecidos com facilidade. Profissionais qualificados podem acabar trabalhando em funções que não aproveitam plenamente sua experiência, reduzindo seu potencial de rendimento.
Um problema que ultrapassa as comunidades imigrantes
A vulnerabilidade financeira não é exclusiva de quem nasceu fora dos Estados Unidos. O próprio levantamento do Fed mostra que a dificuldade de formar patrimônio também está associada à idade, à escolaridade, à localização e à condição de proprietário ou inquilino. A desigualdade entre grupos demográficos, contudo, evidencia que as oportunidades de acumulação de riqueza estão distribuídas de maneira muito desigual.
Para as comunidades imigrantes, a questão tem uma dimensão adicional: a contribuição para a economia pode coexistir com dificuldades para consolidar a própria estabilidade financeira. Trabalhar, pagar impostos e participar do mercado de consumo não assegura, por si só, a possibilidade de comprar uma casa, financiar a educação dos filhos ou manter uma reserva para a aposentadoria.
Os dados tampouco autorizam tratar os imigrantes como um grupo homogêneo. A situação de uma família brasileira estabelecida há décadas, de um profissional recém-chegado, de um refugiado haitiano ou de um trabalhador que ainda enfrenta barreiras linguísticas pode ser bastante diferente. O que os números permitem afirmar é que uma parcela significativa das famílias de Massachusetts permanece exposta a despesas que, em uma economia de alto custo, podem comprometer o orçamento doméstico.
Em um estado cuja prosperidade depende também da mão de obra e do empreendedorismo de pessoas nascidas no exterior, a capacidade de transformar trabalho em segurança financeira é uma questão econômica mais ampla. A pesquisa do Fed oferece um retrato dessa dificuldade: para muitas famílias, o desafio não é apenas ganhar dinheiro, mas conseguir conservar parte dele e convertê-lo em patrimônio.


