Por: Eliana Pereira Ignacio
Olá, meus queridos!
Hoje quero começar com uma pergunta um tanto desconfortável: será que algumas das qualidades pelas quais somos admirados podem ser justamente aquelas que mais nos fazem sofrer?
Pense naquela pessoa que nunca reclama, que está sempre disponível, que compreende tudo, perdoa rapidamente e dificilmente contraria alguém. Costumamos descrevê-la como maravilhosa, equilibrada, generosa. E talvez realmente seja. Mas existe uma possibilidade que raramente consideramos: e se parte dessa disponibilidade não nascer da generosidade, mas do medo de desagradar? E se aquela tranquilidade que tanto admiramos for, algumas vezes, apenas o resultado de sentimentos que nunca encontraram espaço para serem expressos?
Nem sempre aquilo que parece virtude representa liberdade interior. Essa é uma das questões que podemos compreender a partir da Psicologia Humanista, especialmente do pensamento de Carl Rogers. Ao estudar o desenvolvimento da personalidade, Rogers chamou a atenção para a maneira como aprendemos a atribuir valor a nós mesmos a partir da aprovação que recebemos. Quando sentimos que determinadas características são aceitas e outras rejeitadas, podemos começar a selecionar quais partes de nós merecem aparecer.
O próprio Carl Rogers nos deixou uma reflexão particularmente importante:
> “O curioso paradoxo é que, quando me aceito exatamente como sou, então posso mudar.”
À primeira vista, parece contraditório. Afinal, não seria necessário primeiro reconhecer nossos defeitos para depois corrigi-los? Mas talvez esteja justamente aí uma das grandes contribuições da Psicologia Humanista: compreender que a transformação pessoal não precisa nascer da rejeição de quem somos. Podemos reconhecer nossas limitações sem nos reduzir a elas. Podemos desejar mudanças sem considerar nossa existência inadequada. E, principalmente, podemos descobrir que não precisamos conquistar a aprovação de todos para reconhecer nosso próprio valor.
A criança elogiada por nunca contrariar pode aprender que discordar ameaça o afeto. Aquela que recebe reconhecimento apenas quando apresenta bons resultados pode crescer acreditando que errar significa perder valor. E assim, sem que ninguém necessariamente tenha a intenção de provocar sofrimento, uma pessoa pode começar a confundir amor com aprovação e aceitação com obediência.
O mais curioso é que esse processo nem sempre produz alguém aparentemente inseguro. Pode produzir adultos extremamente competentes, responsáveis, prestativos e admirados. Pessoas que resolvem problemas de todos, mas sentem culpa quando precisam cuidar dos próprios interesses. Pessoas que sabem exatamente o que os outros esperam delas, mas encontram dificuldade para identificar o que desejam. Pessoas que dizem “não tem problema” tantas vezes que, um dia, já não conseguem distinguir o que realmente não incomoda daquilo que aprenderam a suportar.
E aqui surge uma contradição interessante: podemos ser muito bem avaliados pelos outros e, ainda assim, estar vivendo em desacordo conosco. Isso não significa que devemos abandonar a gentileza, a responsabilidade ou o compromisso com aqueles que amamos. Significa apenas que precisamos examinar de onde vêm nossas escolhas.
Existe uma diferença importante entre ajudar porque desejamos contribuir e ajudar porque não suportamos a possibilidade de decepcionar. Entre concordar porque compartilhamos uma opinião e concordar porque tememos as consequências de pensar diferente. Entre manter a paz por maturidade e evitar qualquer conflito por medo de rejeição. Externamente, os comportamentos podem parecer idênticos. Internamente, porém, suas motivações podem ser completamente diferentes.
Quando elogiamos alguém por ser tão fácil de conviver, estamos reconhecendo sua maturidade ou apenas agradecendo, sem perceber, por essa pessoa nunca nos contrariar?
> “Porque, persuado eu agora a homens ou a Deus? Ou procuro agradar a homens? Se estivesse ainda agradando aos homens, não seria servo de Cristo.”
> — Gálatas 1:10
Até a próxima semana.
Eliana Pereira Ignacio é Psicóloga, formada pela PUC – Pontifícia Universidade Católica – com ênfase em Intervenções Psicossociais e Psicoterapêuticas no Campo da Saúde e na Área Jurídica; especializada em Dependência Química pela UNIFESP Escola Paulista de Medicina em São Paulo Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas, entre outras quali cações. Mora em Massachusetts e dá aula na Dardah University. Para interagir com Eliana envie um e-mail para epignacio_vo@hotmail.com ou info@jornaldossportsusa.com


