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WASHINGTON — O aumento das ações de fiscalização da Imigração e Fiscalização Aduaneira (ICE) nos Estados Unidos tem sido acompanhado por relatos de maior precarização das condições de trabalho para imigrantes sem documentação regular, especialmente no setor doméstico e em serviços informais. Trabalhadores relatam crescimento de casos de retenção de salários (wage theft), redução arbitrária de remuneração e exigência de mais tarefas por valores menores, em um ambiente marcado pelo medo de deportação.
Levantamentos da National Domestic Workers Alliance, organização que acompanha milhares de trabalhadoras — em sua maioria mulheres latinas atuantes como babás, faxineiras e cuidadoras domiciliares —, indicam piora em vários indicadores entre 2025 e o início de 2026. O percentual de profissionais que dizem sofrer desrespeito no ambiente de trabalho subiu de 32% para 38%. A subutilização da mão de obra (trabalhadores com menos horas do que desejariam) passou de 64% para 72%, enquanto a dificuldade para pagar aluguel ou hipoteca alcançou 62% — o maior patamar registrado pela entidade. A insegurança alimentar chegou a 88% no terceiro trimestre de 2025.
Embora parte desses números tenha apresentado leve melhora no começo deste ano, os índices permanecem elevados. Especialistas afirmam que o temor de ser denunciado às autoridades migratórias tem sido usado, ainda que indiretamente, como forma de pressão, reduzindo a capacidade dos trabalhadores de negociar condições mínimas ou reclamar abusos.
O trabalho doméstico, realizado no interior de residências particulares, historicamente escapa a várias proteções trabalhistas convencionais, o que facilita práticas abusivas. No atual contexto de maior presença da ICE, organizações de defesa dos direitos dos trabalhadores registram que muitos empregadores adotam a postura de “pegar ou largar”, oferecendo salários mais baixos e acumulando funções sem compensação adicional.
Casos notórios de retenção de salários com envolvimento da ICE
Um dos episódios mais emblemáticos ocorreu em 23 de março de 2026, em Cambridge, no estado de Maryland. Seis trabalhadores guatemaltecos foram detidos por agentes da ICE enquanto finalizavam a instalação de um telhado em uma residência na rua Bayly Road. O serviço estava quase concluído e o valor devido girava em torno de US$ 10 mil por três dias de trabalho.
Vídeos que circularam amplamente nas redes sociais mostraram os agentes retirando os homens do telhado. Relatos iniciais, divulgados por veículos como Newsweek e Univision, apontavam que a proprietária da casa teria acionado a imigração supostamente para evitar o pagamento. A mulher negou a acusação, e a ICE classificou a ação como operação planejada e direcionada, afirmando que vários dos detidos tinham ordens finais de remoção ou condenações anteriores por reentrada ilegal. Até o momento, não há registro público de que a proprietária tenha sido formalmente acusada de fraude ou retenção indevida de salário, embora o caso tenha gerado debates sobre a possível instrumentalização das autoridades migratórias.
Outros casos semelhantes têm sido registrados em diferentes regiões. Em áreas da Califórnia e de Nova York, centros de apoio a trabalhadores diaristas (day laborers) relatam aumento de cerca de 40% nas queixas de retenção de salários e chantagem explícita do tipo “se reclamar, denuncio à imigração”. Em um episódio na região de Los Angeles, um trabalhador que instalava pisos afirmou ter recebido menos da metade do valor combinado após concluir o serviço sozinho — e ter sido ameaçado de denúncia quando cobrou o restante.
Esses incidentes reforçam um padrão apontado por entidades de direitos trabalhistas: a vulnerabilidade migratória cria condições para que empregadores reduzam custos à custa da exploração, especialmente em setores de baixa visibilidade como construção residencial, limpeza e cuidados domiciliares.
Do outro lado, algumas organizações de empregadores têm lançado iniciativas para promover práticas mais justas, como oferecer transporte seguro ou folgas em períodos de maior tensão migratória. O impacto dessas medidas, porém, ainda é considerado limitado diante do volume de relatos de precarização.
O endurecimento da fiscalização migratória, portanto, não apenas amplia o risco de deportação, mas também retroage em avanços conquistados nas últimas décadas na organização e na valorização do trabalho doméstico e informal nos Estados Unidos.


