
Boston (EUA) – 7 de janeiro de 2026
Massachusetts vive um paradoxo demográfico: enquanto a população do estado registra o maior crescimento em seis décadas, impulsionado quase exclusivamente pela imigração internacional, milhares de residentes de classe média continuam a deixar o território em busca de custos de vida mais acessíveis. Os dados mais recentes do Censo americano e o relatório anual da locadora de caminhões U-Haul revelam duas realidades distintas que alimentam um debate político acirrado.
Segundo estimativas do United States Census Bureau referentes ao período de julho de 2023 a julho de 2024, Massachusetts ganhou cerca de 70 mil habitantes, elevando a população total para aproximadamente 7,136 milhões de pessoas. Esse aumento, o mais expressivo desde os anos 1960, deve-se quase inteiramente à migração internacional líquida de 90.217 pessoas. O crescimento natural (nascimentos menos óbitos) foi modesto, de 6.718, enquanto a migração doméstica registrou perda líquida de 27 mil a 41 mil residentes.
O relatório U-Haul Growth Index 2026, divulgado nesta semana, coloca Massachusetts na 46ª posição entre os 50 estados americanos em atratividade para mudanças residenciais – uma leve melhora em relação ao 49º lugar do ano anterior, mas ainda entre os piores desempenhos do país. O indicador, baseado em transações de caminhões de mudança de mão única, mostrou que 51,8% das movimentações partiram do estado, contra 48,2% de chegadas provenientes de outros estados americanos.
Os destinos preferidos dos que saem são, majoritariamente, estados do Sul e vizinhos com menor carga tributária: Flórida, Texas, Carolina do Norte, Carolina do Sul e New Hampshire – este último sem imposto estadual sobre renda. O perfil predominante dos emigrantes domésticos é de famílias de classe média, jovens profissionais com formação superior e aposentados, pressionados principalmente pelo custo elevado da moradia, um dos mais altos do país.
“Quando as pessoas votam com os pés ano após ano, não é pelo clima. É porque Massachusetts se tornou caro demais, rígido demais e hostil ao crescimento”, afirmou Paul Diego Craney, diretor-executivo da Massachusetts Fiscal Alliance, entidade conservadora que critica os altos impostos e os mandatos climáticos do estado.
Do outro lado, organizações progressistas argumentam que a narrativa de “fuga em massa” é exagerada. “A classe média e as famílias trabalhadoras enfrentam uma crise real de acessibilidade, com custos de moradia, creche e saúde que expulsam residentes de renda baixa e média”, rebateu Andrew Farnitano, porta-voz da Raise Up Massachusetts. “Precisamos fazer os ultra-ricos e as grandes corporações pagarem sua parte justa para investir em serviços públicos.”
O influxo migratório que sustenta o crescimento populacional é composto majoritariamente por imigrantes humanitários – especialmente haitianos, venezuelanos e centro-americanos – beneficiados por programas federais de asilo e ‘parole’. Muitos chegam com baixa qualificação inicial e ocupam vagas em setores essenciais como construção, serviços e cuidados pessoais.
Esse movimento gerou custos significativos para o estado. No ano fiscal de 2025 (julho de 2024 a junho de 2025), Massachusetts gastou cerca de US$ 900 milhões com o sistema de abrigo emergencial para famílias, conhecido como “right to shelter” – único no país. Para o ano fiscal corrente, o orçamento previsto é de US$ 276 milhões, com tendência de redução à medida que o número de famílias abrigadas cai de mais de 7.500 no pico para cerca de 4 mil atualmente.
Analistas apontam que a crise habitacional é o cerne do problema. A escassez crônica de novas construções mantém preços e aluguéis elevados, afetando especialmente a classe média. Estudos indicam que o estado precisaria construir mais de 220 mil unidades habitacionais até 2035 para alcançar um mercado mais equilibrado.
Embora a imigração internacional mascare a perda doméstica nos números totais de população, especialistas alertam que a saída contínua de profissionais qualificados e famílias contribuintes pode comprometer a competitividade econômica de longo prazo de Massachusetts, um dos principais polos de inovação e educação superior dos Estados Unidos.
O debate deve ganhar força nas eleições de meio de mandato de 2026, quando os eleitores poderão cobrar soluções concretas para a acessibilidade e a retenção de talentos no estado.


