Ao contrário do que se disse na época, o sonho de Gérson, o “Canhotinha de Ouro”, não era encerrar a carreira no Fluminense. Terminar a carreira no clube foi um acidente. Gérson foi vendido ao São Paulo pelo Botafogo em setembro de 1969.
O Botafogo havia recebido uma proposta do América do México, mas já tinha negociado o jogador, uma semana antes, em sigilo, com o São Paulo. No São Paulo, Gérson disputou os Campeonatos Paulistas de 1970 e 1971, dando o bicampeonato ao Tricolor do Morumbi. Morava sozinho em São Paulo, pois sua esposa preferiu ficar no Rio com as filhas pequenas. No início de 1972, em virtude de uma doença em uma das filhas, Gérson pediu ao São Paulo que o liberasse para voltar ao Rio. Com o aval do clube paulista, conversou com um diretor do Botafogo, manifestando o desejo de retornar. Após algumas reuniões, São Paulo e Botafogo não chegaram a um acordo financeiro. Quando o presidente Francisco Laporte soube que o São Paulo havia liberado Gérson, entrou em contato com o jogador e com o clube paulista.
Gérson relutou em jogar no Fluminense, alegando que o time não precisava dele, pois já contava com Cléber e Pintinho, dois jovens para o meio de campo. Paulo Amaral, no entanto, argumentou que Gérson daria experiência aos mais novos. Em dois anos e meio, Gérson vestiu apenas 54 vezes a camisa do Tricolor carioca.
O Fluminense foi o responsável por Gérson se aposentar aos 32 anos de idade. Em 1974, pouco antes do Mundial da Alemanha, o jogador teve um desentendimento com o treinador Duque e, logo depois, abandonou o futebol. Segundo Gérson, durante um treino, o técnico reclamou em voz alta e gesticulando que ele não lançava a bola quando o ponta- -direita Gil fechava para o meio. Gérson respondeu também em voz alta que já havia orientado Gil a só fechar para o meio quando o zagueiro estivesse fora de posição.
Disse ao treinador: “Resolva com o Gil”. Duque retrucou que Gérson tinha que lançar no espaço vazio. Foi então que Gérson explodiu: “Se o zagueiro não sair da posição, o espaço não estará vazio. Se você acha que eu não sei lançar, coloque outro no meu lugar”. Tirou a camisa e foi embora. Na sexta-feira, quando foi divulgada a relação dos jogadores que iriam se concentrar, o nome de Gérson não estava.
O presidente Laporte convocou uma reunião com Gérson, o técnico Duque, o médico Arnaldo Santiago e o preparador físico Parreira. Perguntou ao médico se havia algum problema clínico com Gérson; o médico respondeu que não.
Perguntou a Parreira se havia algum problema físico; Parreira disse que não. Então perguntou a Duque por que Gérson não estava relacionado. Duque respondeu: “Falta endurance” (resistência). Laporte virou-se para Gérson e disse: “Vai para casa, pega suas roupas e vai para a concentração. Você joga no domingo”. Foi o começo da despedida.
Bem, até que enfim o Alfredo Melo assume a verdade que nunca quis calar: ele é o Gatinho Cruel, que agora sai de cena para dar lugar ao seu criador. Enorme criatura no sentido literal, na bondade, no caráter e no conhecimento profundo do futebol e das coisas boas da vida, inclusive pratos deliciosos. Ah, tem também a paixão pelo Botafogo cada dia maior…


