Por: Edel Holz
Tem gente que nasceu para brilhar e tem quem tem brilho próprio e emana luz por onde passa. É o caso de Robson Lemos.
Ele nasceu em Vitória da Conquista, no Nordeste brasileiro, e a arte sempre fez parte de sua vida. Robson foi criado na Bahia e, em sua volta, muitos Caymmis, Caetanos, Gils, acarajés, vatapás e tantas baianices maravilhosas…
O teatro o descobriu ou ele descobriu o teatro? Não se sabe ao certo quando caíram de amores um pelo outro (ele e o teatro). Sei que, quando o conheci, fui logo lhe dando personagens de todos os naipes, e ele os executando com maestria e paixão.
Ele saiu da Bahia e foi para os Estados Unidos da América. Lá, mostrou seu talento em inúmeras produções do Teatro Brasileiro de Boston, tais como: Pluft, o Fantasminha (Pirata Perna de Pau), A Bruxinha que Era Boa (Bruxo), O Cordel Natalino do Cumpadi Jesuíno (Jesuíno), O Doente Imaginário (o próprio) e A Paixão de Cristo, como Jesus, entre outros.
Nossa parceria sempre foi intensa, cheia de carinho, respeito mútuo e muita generosidade de um para o outro.
Por outro lado, ele trabalhou muito em Boston também com teatro-educação no MAPS, estrelou, dirigiu e produziu seus próprios filmes e peças de teatro que destacam o melhor do teatro brasileiro, como Navalha na Carne, de Plínio Marcos, e A Serpente, de Nelson Rodrigues.
E, como o acarajé sempre esteve nas suas memórias mais sutis, incorporou a iguaria nas suas produções teatrais, misturando teatro, música e o melhor da culinária baiana em seus shows.
De repente, Robson foi para Portugal estudar teatro na Universidade de Coimbra, formou-se e foi convidado para participar como ator do filme português A Memória do Cheiro das Coisas.
O filme conta a história de um veterano de guerra de 85 anos que vai morar em um asilo. Robson faz seu enfermeiro. Ele foi escolhido primeiro porque o personagem é brasileiro e também porque Robson já trabalhou em asilo, cuidando de velhinhos.
Quando o enfermeiro deixa o asilo para ser um YouTuber famoso, uma enfermeira negra entra em cena e passa a cuidar do veterano de guerra, numa relação cheia de emoção, tratando de temas como o racismo com muita delicadeza e sensibilidade.
Tem uma cena lindíssima em que o enfermeiro troca o senhor depois de ele sujar sua fralda com fezes, passando a tranquilidade de quem sabe o que faz.
O filme de António Ferreira está acumulando inúmeros prêmios e excelentes críticas desde sua estreia e foi o escolhido para defender Portugal no Oscar deste ano, como melhor filme estrangeiro.
Acompanho desde sempre a trajetória deste menino de 50 anos que tem a arte no sangue, o palco na alma e o amor que transcende o coração.
Fernanda Torres, Selton Mello e Wagner Moura estiveram no Oscar com filmes brasileiros e foram aclamadíssimos por isso. Esse ano, o filme de Lázaro Ramos estará concorrendo com o português A Memória do Cheiro das Coisas e o brasileiro Robson Lemos brilhando na película.
O mundo precisa saber disso porque Robson Lemos merece tantos louros quanto os demais.
SOBRE A COLUNISTA: Edel Holz é a mais premiada e consagrada atriz, roteirista, diretora e produtora teatral brasileira nos Estados Unidos. Inquieta e de mente profícua, Edel tem sempre um projeto cultural engatilhado para oferecer para a comunidade brasileira. Depois de anos de ausência, Edel volta a abrilhantar as páginas de um jornal. Damos as boas vinda à poderosa e de mente efervescente Edel.


