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RECIFE (PE) – Uma pesquisa da Reuters/Ipsos, divulgada em 9 de junho de 2026, expõe com frieza clínica o estado avançado da patologia política contemporânea. Intitulada “Party over purity: US voters unlikely to turn backs on troubled candidates” (Partido sobre a pureza: eleitores dos EUA provavelmente não voltarão atrás em candidatos problemáticos), o levantamento revela que dois em cada três eleitores alinhados a um partido admitem votar em candidatos de quem não gostam apenas para impedir a vitória do outro lado. Mais grave ainda: 76% dos entrevistados afirmam frequentemente escolher o “menor dos dois males” nas eleições. A lealdade partidária suplanta escândalos, contradições e até sinais alarmantes de caráter.
Essa não é uma mera constatação eleitoral. É o sintoma de um sectarismo político que, ao longo da história, tem transformado seres humanos em instrumentos de causas supostamente maiores — e que, em sua escala atual, evoca os mecanismos psicológicos que precederam as piores atrocidades do século XX.
O Argumento de Dönitz e o “Tu Quoque” Moderno
Em 1946, no Tribunal de Nuremberg, o almirante Karl Dönitz — sucessor de Hitler — apresentou uma defesa cínica e eternamente reveladora: “Vocês Aliados também bombardearam cidades alemãs, matando dezenas de milhares de civis em Dresden, Hamburgo e outras localidades. Então por que apenas nós estamos sendo julgados?”

Era o clássico tu quoque — “você também”. Tecnicamente uma falácia: o crime de um não absolve o crime do outro. Psicologicamente, porém, um instrumento devastador. Ele não busca inocentar; busca paralisar o julgamento moral ao espalhar a sensação de hipocrisia universal. O tribunal condenou Dönitz, mas o argumento permaneceu como um dos mais cínicos da história moderna.
Hoje, o mesmo mecanismo opera em escala industrial nas democracias polarizadas. Nos Estados Unidos, como mostra a pesquisa Reuters, eleitores democratas minimizam tatuagens de inspiração nazista ou mensagens explícitas de um candidato porque “o outro lado é pior”. Republicanos sustentam figuras indiciadas por fraudes porque “os democratas também fizeram”. No Brasil, o refrão é idêntico: “Lula roubou, mas Bolsonaro também”; “Bolsonaro estimulou o 8 de janeiro, mas o PT fez Mensalão e Petrolão”. Não se discute virtude ou acerto. Discute-se apenas quem é o “menos pior”. A política deixou de ser uma arena de ideias e tornou-se uma guerra tribal onde a vitória justifica quase tudo.
Esse comportamento não é novo. É o mesmo que permitiu genocídios e regimes totalitários ao longo da história. Quando a “causa” — seja a revolução proletária, a pureza racial, a defesa da fé ou a “salvação da pátria” — é colocada acima dos valores humanos universais, a desumanização torna-se inevitável. O outro deixa de ser pessoa e vira “verme”, “fascista”, “comunista”, “golpista”, “ameaça à democracia”.
Pensemos nos grandes horrores:
- Na Revolução Francesa, o “bem maior” da Liberdade justificou o Terror jacobino.
- No stalinismo, a construção do socialismo exigiu milhões de mortos em gulags — “inimigos do povo”.
- No nazismo, a pureza ariana tornou aceitável o extermínio sistemático de judeus, ciganos, homossexuais e deficientes.
- No Camboja do Khmer Vermelho, a utopia agrária permitiu o genocídio de um quarto da população.
- Nas ditaduras latino-americanas, tanto de esquerda quanto de direita, o “inimigo interno” foi torturado e desaparecido em nome da “segurança nacional” ou da “revolução”.
Em todos os casos, o tu quoque e a lógica do “bem maior” cumpriram papel central. Os algozes não se viam como monstros. Viam-se como soldados de uma causa superior, enquanto o outro lado era igualmente culpado ou pior. A dissonância cognitiva era resolvida não pela retificação moral, mas pela intensificação da lealdade tribal.
Os Perigos da Escala Atual
O que torna o momento atual particularmente perigoso é a escala amplificada por redes sociais e algoritmos. O sectarismo não é mais restrito a elites ou militantes fanáticos. Ele foi democratizado. Milhões de pessoas comuns, em seus celulares, reproduzem diariamente versões digitais do argumento de Dönitz. Uma postagem, um vídeo curto, um meme — e o julgamento moral é suspenso. O adversário político é desumanizado em tempo real. Ele não erra: ele é o mal encarnado.
Essa dinâmica cria um ciclo vicioso:
- Degradação moral coletiva: Quando “todo mundo faz”, o inaceitável vira norma.
- Imunidade tribal: Líderes entendem que uma base fiel perdoa quase tudo, desde que o ódio ao outro seja mantido.
- Destruição da verdade: O debate público deixa de ser sobre fatos e princípios e vira uma competição de narrativas — “quem fez mais” ou o “nós contra eles”.
Nas democracias consolidadas, esse processo ainda não chegou ao ponto de genocídio. Mas os sinais são claros. A desumanização retórica (“fascista”, “comunista”, “golpista”, “ditador”) prepara o terreno psicológico para violências maiores. Quando uma parcela significativa da população vê o adversário não como compatriota, mas como ameaça existencial, a democracia torna-se frágil. Instituições são atacadas, normas são relativizadas e a violência política — verbal primeiro, física depois — ganha espaço.
O Caminho da Resistência
Reconhecer esse mecanismo é o primeiro passo para combatê-lo. A verdadeira maturidade política não está em defender cegamente o próprio lado, mas em ter coragem de dizer: “Meu campo errou. Isso é inaceitável, independentemente do que o outro lado tenha feito”.
Enquanto as sociedades priorizarem a vitória tribal sobre princípios éticos universais, estaremos repetindo, em versão digital e eleitoral, os mesmos erros que levaram a distopias sangrentas no passado. A pesquisa Reuters/Ipsos não é apenas um dado eleitoral. É um alerta civilizacional.
A polarização extrema não produz apenas maus governos. Ela produz sociedades doentes, nas quais o ser humano perde sua dignidade intrínseca e torna-se mero peão em jogos de poder. O século XX nos ensinou, a um preço altíssimo, o custo desse sectarismo. Ignorar a lição é arriscar repeti-la — não necessariamente com campos de extermínio, mas com democracias esvaziadas, instituições corroídas e uma convivência humana cada vez mais impossível.
Fonte principal:
“Party over purity: US voters unlikely to turn backs on troubled candidates, Reuters/Ipsos poll finds” — Reuters, 9 de junho de 2026.
Disponível em: https://www.reuters.com/world/party-over-purity-us-voters-unlikely-turn-backs-troubled-candidates-reutersipsos-2026-06-09/


