Por:Eliana Pereira Ignacio
Olá, meus caros leitores!
Na semana passada, em nossa coluna SOS VIDA, iniciamos uma reflexão sobre uma experiência comum a todos nós: a espera. Conversamos sobre como a incerteza pode alimentar preocupação, ansiedade e a necessidade de antecipar aquilo que ainda não podemos saber. Também refletimos sobre um risco silencioso: começar a adiar a própria vida enquanto aguardamos determinada resposta.
Terminamos com uma pergunta que gostaria de trazer novamente:
“Quanto da minha vida estou adiando enquanto espero por alguma coisa que ainda não posso controlar?”
Hoje avançaremos um pouco mais. Se não podemos eliminar todas as incertezas, como podemos continuar vivendo de maneira emocionalmente saudável enquanto algumas respostas ainda não chegaram?
Flexibilidade psicológica: sentir e continuar
Uma contribuição importante vem da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), desenvolvida por Steven Hayes e colaboradores. Um de seus conceitos centrais é a flexibilidade psicológica: a capacidade de permanecer em contato com pensamentos, sentimentos e experiências difíceis sem permitir que eles determinem completamente nossas escolhas, mantendo nossas ações orientadas por aquilo que possui valor para nós (Hayes, Strosahl & Wilson, 2012).
Em termos cotidianos, significa compreender:
- Posso estar preocupado e ainda assim continuar vivendo.
- Posso sentir medo e ainda tomar uma decisão necessária.
- Posso não conhecer a resposta e continuar cuidando daquilo que é importante para mim.
Aceitação, nesse contexto, não significa conformismo. Não significa gostar de uma situação difícil ou desistir de modificá-la quando existe possibilidade de mudança.
Significa reconhecer aquilo que está acontecendo sem gastar toda a nossa energia tentando controlar internamente uma realidade que, naquele momento, não podemos alterar.
Essa diferença é fundamental.
Existe uma parte da vida que ainda depende de nós
Charles R. Snyder, conhecido por seus estudos sobre a esperança, também nos oferece uma contribuição importante. Em sua Teoria da Esperança, Snyder (2002) demonstrou que esperança não deve ser confundida simplesmente com pensamento positivo.
Ela envolve objetivos, capacidade de perceber caminhos possíveis para alcançá-los e motivação para continuar caminhando.
Essa compreensão muda a maneira como enxergamos a espera.
Esperança psicologicamente saudável não é permanecer imóvel acreditando que alguma coisa boa acontecerá.
Às vezes, esperança significa perguntar:
Enquanto aquilo que não depende de mim permanece indefinido, o que ainda depende de mim?
- Talvez eu não controle uma resposta profissional, mas posso continuar me preparando.
- Não controlo completamente o comportamento de outra pessoa, mas posso estabelecer limites.
- Não determino quando determinada oportunidade chegará, mas posso continuar desenvolvendo minhas capacidades.
- Não consigo garantir que aquilo que desejo acontecerá exatamente como imaginei, mas posso impedir que a espera consuma tudo aquilo que já existe.
Isso não elimina a dor.
Devolve movimento à vida.
A Psicologia não promete finais felizes
É importante fazer essa distinção.
A Psicologia Clínica não existe para convencer alguém de que “tudo dará certo”. Seu compromisso não é oferecer garantias sobre o futuro, mas fortalecer recursos psicológicos para enfrentar a realidade.
Algumas respostas chegarão.
Outras serão diferentes daquelas que gostaríamos de receber.
Algumas situações exigirão mudanças de direção.
Maturidade emocional não significa deixar de desejar determinado resultado. Significa conseguir reconhecer que a nossa vida não pode depender exclusivamente dele para continuar tendo sentido.
É nesse espaço que começamos a substituir a necessidade de controle pela capacidade de enfrentamento.
E onde entra a fé?
É justamente aqui que Psicologia e fé podem conversar sem que uma precise ocupar o lugar da outra.
“Quem observa o vento nunca semeará, e o que olha para as nuvens nunca segará.”
Eclesiastes 11:4
Até a próxima semana!
Eliana Pereira Ignacio é Psicóloga, formada pela PUC – Pontifícia Universidade Católica – com ênfase em Intervenções Psicossociais e Psicoterapêuticas no Campo da Saúde e na Área Jurídica; especializada em Dependência Química pela UNIFESP Escola Paulista de Medicina em São Paulo Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas, entre outras qualificações. Mora em Massachusetts e dá aula na Dardah University. Para interagir com Eliana envie um e-mail para epignacio_vo@hotmail.com ou info@jornaldossportsusa.com


