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Mais de cem vezes. Mais de cem vezes o médico Anthony Fauci, o homem que por décadas falou em nome da ciência americana, repetiu a mesma frase mecânica: “Sob conselho dos meus advogados, invoco o direito previsto na Quinta Emenda da Constituição para me recusar a responder”.
Era 29 de julho de 2026. Rand Paul, o senador do Kentucky, fazia perguntas sobre a origem do vírus, sobre o financiamento de pesquisas em Wuhan, sobre e-mails e diários. Fauci, aos 85 anos, sentado à mesa, respondia apenas com o direito constitucional de não se incriminar.
Mas o silêncio daquele dia não era apenas o de um homem que se protege. Ele mostrava algo mais antigo e mais perturbador: a memória de uma sociedade que, poucos anos antes, havia se transformado em sistema de vigilância de si mesma.
Durante 2020 e 2021, em vários países — incluindo partes dos Estados Unidos, Europa, Austrália e também no Brasil em algumas cidades e estados —, virou rotina: vizinho filmando vizinho, ligando para a polícia ou para canais de denúncia porque alguém saiu de casa “sem necessidade”, recebeu visita, andou na rua sem máscara ou simplesmente abriu a porta. Em alguns lugares existiam aplicativos oficiais e hotlines específicas para “reportar violações”. O clima de vigilância mútua foi real e deixou marcas profundas.
Às vezes nos perguntamos como uma sociedade se torna totalitária. A resposta mais fácil é dizer que o Estado se fortalece abusando dos poderes que lhe foram concedidos. Mas a história mostra algo mais inquietante. Os regimes opressivos da Alemanha nazista e da Itália fascista na primeira metade do século passado, e a Rússia sob Stalin, só prosperaram de fato quando a própria sociedade passou a agir da mesma forma: quando o cidadão comum se transformou em fiscal do outro, quando a delação entre vizinhos se tornou virtude e quando o medo e a “ciência oficial” justificaram o controle absoluto da vida cotidiana. Essa associação é perceptível. Na pandemia, vimos novamente o mesmo mecanismo em ação — não com fuzilamentos ou campos de concentração, mas com o mesmo espírito de denúncia mútua, de suspeita permanente e de obediência cega a uma narrativa única.
E no centro dessa narrativa, nos Estados Unidos e, por extensão, em grande parte do mundo ocidental, estava Anthony Fauci.
Ele não era o prefeito de nenhuma cidade nem o governador de nenhum estado. Ele não escrevia as leis locais nem mandava a polícia bater na porta. Mas ele foi, sem dúvida, a face científica mais poderosa e influente por trás da justificativa dessas medidas. Foi ele quem, desde março de 2020, defendeu publicamente o “15 dias para achatar a curva”, depois estendido indefinidamente. Foi ele quem elevou o distanciamento social, o fechamento de escolas e comércios e o isolamento como “a ciência”. Foi ele quem, em depoimentos e entrevistas, tratava qualquer questionamento como “anti-ciência”.
Quando Fauci falava na televisão americana, a mensagem ecoava globalmente. Muitos gestores locais simplesmente repetiam o que o “maior especialista do mundo” estava dizendo. O resultado prático, em várias regiões, foi exatamente o clima de delação e controle social que tanta gente ainda carrega na memória, eu mesmo sou um desses que se lembram.
O relatório final do Select Subcommittee on the Coronavirus Pandemic da Câmara dos Representantes, divulgado em dezembro de 2024, após dois anos de investigação, chegou a conclusões duras. O vírus SARS-CoV-2 “muito provavelmente emergiu de um incidente laboratorial ou relacionado a pesquisa” em Wuhan. A pesquisa de ganho de função foi financiada, em parte, com dinheiro do contribuinte americano. O National Institutes of Health, sob a direção de Fauci no NIAID, concedeu à EcoHealth Alliance um ‘grant’ de cerca de 3,7 milhões de dólares entre 2014 e 2020. Desse valor, aproximadamente 600 mil dólares foram para o Instituto de Virologia de Wuhan. Experimentos criaram vírus quiméricos. A EcoHealth atrasou relatórios, omitiu resultados e, segundo o próprio subcomitê, violou os termos do financiamento.
Fauci, em depoimentos anteriores, afirmou categoricamente que o NIH “nunca financiou e não financia” pesquisa de ganho de função no laboratório de Wuhan. O relatório republicano classificou essa afirmação, no mínimo, como enganosa.
Mais grave ainda foi o episódio do artigo “The Proximal Origin of SARS-CoV-2”, publicado em março de 2020 na Nature Medicine. O texto se tornou a bíblia oficial para declarar a hipótese de vazamento de laboratório como “teoria da conspiração”. E-mails e mensagens obtidos por FOIA mostram que Fauci e Francis Collins participaram da conversa de 1º de fevereiro de 2020 que deu origem ao paper. Cientistas envolvidos expressaram, em privado, preocupações de que características do vírus “pareciam projetadas”. Poucos dias depois, o artigo público afirmava o oposto com certeza absoluta. Fauci o citou da Casa Branca.
Enquanto isso, no front doméstico, as políticas se multiplicavam. O distanciamento de seis pés — “sort of just appeared”, admitiu Fauci em depoimento fechado de 2024 — não tinha base em ensaio clínico específico. Fechamentos prolongados de escolas deixaram marcas profundas. Mais de 1,1 milhão de americanos morreram de COVID-19.
Agora, em 2026, o mesmo homem que exigia transparência e obediência se recusa a responder. O comitê vota nesta quinta-feira se o enviará ao Departamento de Justiça por desacato ao Congresso. Pode dar em nada. Pode virar processo, mas os fatos foram expostos e o que ficou registrado não precisa de veredicto judicial para existir.
Documentos. E-mails. Relatórios oficiais. Depoimentos sob juramento. E, por baixo de tudo, a memória coletiva de uma sociedade que, por um tempo, se transformou em fiscal de si mesma — exatamente como outras sociedades fizeram em outros tempos sombrios.
A ciência, como Fauci tanto repetiu, é auto-corrigível. Resta saber se as instituições que a representam — e a sociedade que as sustentou — também o são.


