Por: Edel Holz
Ele era um violeiro que contava estrelas, narrava causos e conhecia os segredos da Lua e de seu dragão. Sua viola era mágica. O som saía macio, alto, claro… Havia uma luz dentro dela que iluminava os sonhos dos que amavam a noite.
O violeiro fazia pedra chorar. O coração mais seco, mais duro, amolecia com seu cantar. Suas modas ecoavam pelos morros, colinas e florestas, chegando às cidades mais distantes e inatingíveis.
Todos os dias, ele pulava a cerca que rodeava sua casinha no alto da serra para chupar algumas laranjas-lima na horta do vizinho. O pé era pequeno, a fruta miúda, e ele contava quantas havia para guardar as restantes para a manhã seguinte. Se no pé houvesse seis, chupava duas, deixava quatro, e assim por diante.
O vizinho nem ligava para o pé de laranja-lima. Sabia que o violeiro precisava delas para compor.
Certa vez, quando acordou para chupar as laranjas que restavam, caiu um temporal tão forte, com vento, trovão e todas as zangas de São Pedro. Mesmo assim, tocou uma moda e saiu na chuva para apanhar o que lhe dava força para poetizar.
A água molhou sua face, suas roupas e sua viola. Ele chorou inteiro.
As laranjas não estavam mais lá: a chuva as havia derrubado ladeira abaixo.
O violeiro voltou para casa ensopado e, mesmo assim, compôs uma canção. Percebeu que a inspiração não vinha das laranjas, mas do seu coração.
Foi para o alpendre, olhou para o céu e fez uma oração ao som da viola.
A chuva parou, o sol voltou e, no alto da árvore, tantas laranjas brotaram…
SOBRE A COLUNISTA: Edel Holz é a mais premiada e consagrada atriz, roteirista, diretora e produtora teatral brasileira nos Estados Unidos. Inquieta e de mente profícua, Edel tem sempre um projeto cultural engatilhado para oferecer para a comunidade brasileira. Depois de anos de ausência, Edel volta a abrilhantar as páginas de um jornal. Damos as boas vinda à poderosa e de mente efervescente Edel.


