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Recife, 20 de maio e 2026 – O uso em larga escala de agonistas GLP-1, como semaglutida (Ozempic, Wegovy) e tirzepatida (Mounjaro, Zepbound), mudou o cenário do tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2 no Brasil. Com a perda de patente e a chegada de versões genéricas e similares mais acessíveis, essas medicações tornaram-se populares até demais — especialmente entre mulheres que buscam perda de peso por motivos estéticos. Milhões de brasileiras recorrem às canetas injetáveis para afinar a silhueta, muitas vezes com uso off-label. Mas, junto aos benefícios comprovados, ganha atenção um efeito colateral ainda pouco estudado: a anedonia — perda da capacidade de sentir prazer —, fenômeno que alguns chamam informalmente de “personalidade Ozempic” e que, para muitas, inclui redução do desejo sexual.
O tema ganhou repercussão internacional em reportagem do site TODAY (NBC News), que ouviu o americano Dave Knapp, fundador do podcast “On The Pen”. Após três anos usando Mounjaro, ele deixou de sentir a mesma empolgação com o beisebol dos Chicago Cubs e encontrou dificuldade para ir à academia, mesmo motivado. “Era como se as luzes tivessem diminuído”, relatou Knapp.
Embora o caso destaque um paciente masculino, relatos semelhantes — incluindo perda de prazer em hobbies, socialização e intimidade — aparecem com frequência entre mulheres em fóruns, redes sociais e consultórios nos Estados Unidos.No Brasil, o fenômeno também é relatado em consultórios de endocrinologia, ginecologia e psiquiatria, especialmente nos voltados para emagrecimento estético. Publicações científicas nacionais, como artigos na Revista Eletrônica FUNVIC e REASE, associam o uso indiscriminado de tirzepatida a alterações psicológicas, incluindo anedonia, crises de ansiedade e modulação do sistema de recompensa cerebral. Endocrinologistas e psiquiatras ouvem cada vez mais pacientes — em sua maioria mulheres — descrevendo a vida como “mais sem graça”, com redução de motivação para hobbies, socialização, exercícios e, com frequência, queda na libido: menor interesse sexual, dificuldade de excitação ou sensação de que a intimidade “perdeu o brilho”.
Como a anedonia afeta o sistema de recompensa?
A anedonia é a diminuição ou perda da capacidade de experimentar prazer e motivação em atividades normalmente gratificantes. Esses medicamentos atuam em receptores do cérebro ligados à fome e ao centro de recompensa (via dopamina). Ao “desligar” o prazer intenso da comida, eles promovem a perda de peso. Em algumas pessoas, porém, esse efeito transborda: outras fontes de satisfação — esporte, convívio, realizações — também perdem brilho, gerando um embotamento emocional.
Além da anedonia, pacientes mencionam irritabilidade, ansiedade, fadiga emocional e oscilações de humor. Estudos de farmacovigilância registram sinais de piora em subgrupos com histórico psiquiátrico, mas metanálises indicam que, para a maioria, o efeito líquido sobre a saúde mental é neutro ou positivo (graças à redução de peso e inflamação). O equilíbrio varia de pessoa para pessoa.
Especialistas como o gastroenterologista Christopher McGowan enfatizam: “Não está na cabeça dos pacientes. Estamos ouvindo isso com frequência suficiente para prestar atenção”. No Brasil, a Anvisa e as sociedades médicas reforçam a importância do acompanhamento multidisciplinar, especialmente diante do uso off-label e da automedicação.
As fabricantes Eli Lilly e Novo Nordisk afirmam monitorar continuamente a segurança e recomendam que qualquer sintoma seja comunicado ao médico.
O que fazer?
Diante de falta persistente de motivação, dificuldade para iniciar tarefas ou comentários de familiares sobre “falta de ânimo”, procure o profissional de saúde. Muitas vezes, basta reduzir a dose, trocar o medicamento ou fazer uma pausa temporária — como fez Knapp, que melhorou com dose menor de Zepbound. Exercício físico continua sendo o melhor aliado do humor, junto à construção consciente de novas fontes de prazer.
Esses remédios representam um avanço importante no combate às duas grandes epidemias nacionais — obesidade e diabetes tipo 2 —, que crescem de forma acelerada no país. Mas, como toda ferramenta potente, exigem uso responsável, com olhar integral para corpo e mente.


