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BRASÍLIA – A Polícia Federal determinou nesta quarta-feira, 22 de abril, a retirada das credenciais de um agente dos Estados Unidos que atuava junto à instituição em Brasília. A medida, adotada pelo diretor-geral Andrei Rodrigues, segue o princípio da reciprocidade e responde à decisão do governo norte-americano de revogar o acesso do delegado brasileiro Marcelo Ivo de Carvalho, oficial de ligação da PF junto ao ICE (Imigração e Alfândega dos EUA) em Miami.
Em entrevista à GloboNews, Rodrigues afirmou ter tomado a decisão “com muito pesar”. “Gostaria que nada disso estivesse acontecendo”, disse o diretor-geral. Ele explicou que as credenciais do agente americano ficarão suspensas até que se esclareça a situação do delegado brasileiro. “À medida que uma agência retira as credenciais do meu policial, eu retiro as credenciais do policial norte-americano que está aqui.”
Com a suspensão, o servidor dos EUA perde acesso às dependências da Polícia Federal e aos sistemas internos utilizados em operações de cooperação internacional. A PF nega que o delegado Marcelo Ivo tenha sido formalmente expulso pelos americanos. Segundo Rodrigues, Ivo teve o acesso aos sistemas negado ao chegar ao trabalho na segunda-feira (20) e foi chamado de volta ao Brasil por determinação da própria direção da PF para prestar esclarecimentos.
O episódio tem origem na prisão do ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ), ex-diretor da Abin no governo Jair Bolsonaro, detido pelo ICE nos Estados Unidos. Ramagem é considerado foragido pela Justiça brasileira, onde responde a investigações relacionadas a suposta tentativa de golpe de Estado. O delegado Marcelo Ivo, que atua como oficial de ligação desde 2023, teria fornecido informações que auxiliaram na localização e detenção de Ramagem.
Autoridades americanas acusam o delegado brasileiro de tentar “contornar” os mecanismos formais de cooperação e extradição, o que teria gerado perda de confiança. O Departamento de Estado chegou a publicar comunicado sobre o caso, afirmando que o oficial de ligação induziu erro ao tratar a prisão como simples deportação por visto vencido.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia sinalizado na terça-feira (21), durante viagem à Alemanha, que o Brasil adotaria reciprocidade caso confirmasse “abuso” por parte dos EUA. “Não podemos aceitar essa ingerência e esse abuso de autoridade que algumas personalidades americanas querem ter com relação ao Brasil”, declarou Lula em Hannover.
O Itamaraty convocou representantes da Embaixada dos Estados Unidos para prestar esclarecimentos, em reunião realizada na tarde de terça. Até o momento, não há indícios de que o episódio deva se estender a outros níveis da relação bilateral, mas a medida da PF representa uma escalada simbólica e operacional no âmbito da cooperação policial.
Impacto na cooperação bilateral
A decisão da PF ocorre em um momento delicado para a parceria entre as duas maiores economias das Américas. Brasil e Estados Unidos mantêm há décadas acordos robustos de intercâmbio de inteligência no combate ao narcotráfico, ao crime organizado transnacional (como o PCC), à lavagem de dinheiro e ao cibercrime. A presença de adidos policiais e oficiais de ligação em ambas as capitais é considerada essencial para agilizar o fluxo de informações.
Especialistas ouvidos pelo Estadão avaliam que a suspensão de credenciais, embora pontual, pode gerar burocracia adicional e reduzir a confiança mútua no curto prazo. “A reciprocidade é um instrumento legítimo de direito internacional, mas, quando aplicada a agências de segurança, costuma ter efeito cascata”, disse um diplomata brasileiro sob condição de anonimato.
Na oposição, parlamentares bolsonaristas criticaram a medida como “revanchismo ideológico” do governo Lula. Já no campo governista, a ação é vista como defesa da soberania e resposta proporcional a uma suposta ingerência externa.
A PF informou que o delegado Marcelo Ivo deve chegar ao Brasil nos próximos dias. O diretor-geral Andrei Rodrigues afirmou que o caso será tratado inicialmente no âmbito operacional das polícias, cabendo ao Itamaraty eventuais desdobramentos diplomáticos mais amplos.
Até o fechamento desta edição, nem a Embaixada dos EUA em Brasília nem o Departamento de Estado comentaram formalmente a retirada das credenciais do agente americano.


