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A renúncia de Keir Starmer em 22 de junho de 2026 e a vitória expressiva de Andy Burnham na eleição suplementar de Makerfield (54,8% dos votos) colocaram o ex-prefeito de Greater Manchester no centro do tabuleiro político britânico. Pela primeira vez em anos, o Partido Trabalhista parece disposto a experimentar uma fórmula que combina elementos clássicos da esquerda com uma retórica e propostas que, em alguns pontos, se aproximam surpreendentemente do populismo de direita representado por Nigel Farage e o Reform UK.
Esse fenômeno não é casual. Burnham batizou sua visão de “Manchesterism” — um conjunto de ideias que mistura devolução de poder, intervencionismo estatal seletivo e uma crítica dura ao establishment de Westminster. O resultado é uma forma de populismo de esquerda que, em vários aspectos, rompe com a ortodoxia progressista tradicional e dialoga, de forma tática ou substantiva, com temas caros à direita populista inglesa.
O que é o Manchesterism?
Diferente do liberalismo manchesteriano do século XIX (defensor do livre-comércio), o Manchesterism de Burnham é uma resposta contemporânea à centralização excessiva em Londres, à desindustrialização do Norte e ao fracasso do modelo neoliberal.
Seus pilares principais são:
- Devolução radical de poder: Transferir decisões fiscais, de planejamento e de serviços para regiões e cidades, reduzindo o controle do Tesouro de Westminster.
- Estado produtivo: Retomar controle público (total ou parcial) de serviços essenciais como transporte, energia, água e habitação social.
- Fim do “trickle-down”: Rejeição explícita à ideia de que o crescimento econômico beneficia automaticamente as classes trabalhadoras.
- Reindustrialização: Foco em criar empregos qualificados no Norte, combinando investimento público com parceria com o setor privado.
Pontos não tradicionais do populismo de esquerda de Burnham
- Postura dura em imigração
Burnham defende redução da migração líquida, maior uso de centros de detenção e deportações mais rápidas. Chegou a dizer que concorda com Farage na necessidade de recuperar “a sense of order”. - Disposição para cortar gastos sociais em nome da defesa
Está disposto a reduzir o orçamento de welfare para financiar o aumento dos gastos militares. - Ênfase regional em vez de puramente classista
Constrói sua narrativa em torno da oposição Norte vs Londres. - Pragmatismo econômico
Defende um “socialismo amigável aos negócios”, com forte componente de parceria público-privada.
Paralelos com o populismo de direita inglesa
| Tema | Populismo de Esquerda (Burnham) | Populismo de Direita (Reform UK / Farage) | Similaridade |
|---|---|---|---|
| Anti-elite | Anti-Westminster / anti-Londres | Anti-elite metropolitana e globalista | Alta |
| Imigração | Controle mais rígido + deportações rápidas | Redução drástica e deportações | Alta |
| Sistema quebrado | “A política não está funcionando” | “O sistema está quebrado” | Alta |
| Economia | Fim do neoliberalismo + estado produtivo | Protecionismo + crítica à globalização | Média |
| Público-alvo | Classe trabalhadora do Norte | Classe trabalhadora do Norte/Red Wall | Alta |
| Discurso | Emocional, direto, “o povo vs os de cima” | Emocional, direto, “o povo vs os de cima” | Alta |
Ambos exploram o mesmo sentimento de abandono regional e de perda de controle sobre o próprio destino. A diferença fundamental está no remédio: Burnham propõe mais Estado (mas regionalizado e “produtivo”), enquanto Farage propõe menos Estado e mais soberania nacional dura.
Comparação entre o populismo de direita e o populismo de esquerda de Burnham
Embora compartilhem diagnósticos semelhantes sobre a crise britânica, o populismo de direita de Nigel Farage e o populismo de esquerda de Andy Burnham divergem profundamente nas soluções propostas. Ambos falam ao “povo esquecido”, criticam a elite londrina e exigem maior controle da imigração, mas as respostas que oferecem revelam visões de mundo quase opostas.
O Reform UK de Farage propõe um Estado menor, redução drástica de impostos, cortes profundos na burocracia e uma soberania nacional dura, com ênfase na identidade cultural britânica e na limitação quase total da imigração. Seu discurso é anti-establishment, mas também anti-Estado intervencionista. A solução é “menos Westminster, menos regras, menos imigrantes”.
Já Burnham, pelo contrário, enxerga no Estado regionalizado a principal ferramenta de salvação. Seu Manchesterism não quer enfraquecer o poder público, mas redistribuí-lo: mais Estado nas regiões, mais controle público sobre serviços essenciais (energia, água, transporte), mais investimento estatal na reindustrialização do Norte e maior proteção social — desde que acompanhada de ordem migratória e eficiência. Ele não rejeita a globalização, mas quer “domesticá-la” através de devolução radical de poder.
- Direita populista (Farage): Soberania nacional + Estado mínimo + identidade cultural forte + mercado livre com protecionismo seletivo.
- Esquerda populista (Burnham): Soberania regional + Estado forte e descentralizado + identidade territorial (Norte vs Londres) + intervencionismo econômico pragmático.
Essa é a grande diferença: enquanto Farage quer retirar poder de Westminster para devolvê-lo ao indivíduo e à nação, Burnham quer retirar poder de Westminster para devolvê-lo às regiões e ao Estado local. Um é liberal-conservador populista. O outro é social-democrata regionalista populista.
É exatamente essa mistura de diagnóstico comum com remédios diferentes que torna Burnham tão perigoso para o Reform UK: ele rouba a linguagem e as queixas da direita, mas oferece respostas tipicamente de esquerda.
O que podemos esperar de um governo Burnham?
- Avanço na devolução e na criação de “estados produtivos” regionais.
- Política migratória mais restritiva que a de Starmer.
- Aumento real dos gastos com defesa, possivelmente financiado por cortes em benefícios.
- Nacionalizações ou controle público seletivo de serviços essenciais.
- Tensão interna no Labour entre ala esquerda e moderados.


