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As prisões de imigrantes nos Estados Unidos dispararam nos últimos meses, impulsionadas pela maior cooperação entre forças policiais locais e o Immigration and Customs Enforcement (ICE), pelo uso ampliado de tecnologia e pelo compartilhamento de informações entre órgãos federais. Mas o aumento das detenções não se converteu em crescimento proporcional das deportações.
Dados preliminares do governo americano analisados pela Reuters mostram que o ICE realizou quase 51 mil prisões em agosto, o terceiro recorde mensal consecutivo. As deportações, porém, permaneceram relativamente estáveis, em torno de 1.200 por dia. Em maio, quando ocorreram cerca de 19 mil prisões a menos, a média diária de deportações era semelhante.
A diferença revela os limites legais e logísticos enfrentados pelo governo Donald Trump para ampliar a deportação em massa. Segundo dados do Deportation Data Project obtidos por meio de pedidos de acesso a documentos públicos e analisados pela Reuters, cresce a participação de pessoas sem condenação ou acusação criminal e sem ordem de deportação entre os detidos.
Muitos têm pedidos de asilo ou outros processos migratórios ainda em andamento. Nesses casos, a remoção imediata pode não ser possível sem que a pessoa renuncie a direitos e aceite deixar voluntariamente o país.
A ofensiva migratória também se tornou mais ampla. Durante o verão, agentes do ICE atuaram com policiais locais em abordagens de trânsito e realizaram detenções em residências e locais de trabalho. Outros imigrantes foram presos em tribunais de imigração ou durante compromissos rotineiros relacionados a seus processos.
Embora o governo continue afirmando que prioriza os imigrantes considerados “os piores dos piores”, menos de um quarto dos presos em julho tinha condenação criminal, segundo o Deportation Data Project. Em dezembro de 2024, último mês antes do segundo mandato de Trump, essa proporção era de quase 60%.
Entre os alvos estão pessoas que forneceram informações ao próprio governo americano na tentativa de regularizar sua situação. O grupo inclui imigrantes com pedidos de asilo, processos de residência patrocinados por familiares cidadãos americanos e mais de um milhão de pessoas que perderam algum status migratório temporário durante o segundo mandato de Trump.
Nos aeroportos, o ICE também passou a utilizar informações fornecidas pela Transportation Security Administration (TSA). Dados internos compartilhados com a Reuters indicam que mais de 1.200 pessoas foram presas pelo ICE após informações repassadas pela TSA até o início de junho.
A Casa Branca rejeitou a interpretação de que as detenções não estejam produzindo resultados. A porta-voz Lauren Bis classificou a análise como uma “narrativa falsa” e afirmou que três milhões de imigrantes em situação irregular deixaram os Estados Unidos. O Departamento de Segurança Interna (DHS), por sua vez, afirmou à Reuters que não existem cotas de prisões, embora autoridades atuais e anteriores tenham relatado pressão para alcançar uma meta de 3 mil detenções por dia.
Falta de aviões limita deportações
Mesmo quando uma pessoa está sujeita à deportação, a remoção depende de uma complexa operação logística, que envolve tribunais, centros de detenção, governos estrangeiros e disponibilidade de voos.
Segundo ex-funcionários ouvidos pela Reuters, a quantidade de aeronaves disponíveis historicamente representa um dos principais obstáculos. O governo Trump assinou no ano passado um acordo para adquirir seis Boeing 737 destinados a deportações, mas os aviões ainda passam por verificações da Federal Aviation Administration (FAA) e não estão em operação.
Além disso, voos podem partir com assentos vazios por razões jurídicas, diplomáticas ou logísticas, ou porque o país de destino limita o número de pessoas que aceita receber. Voos recentes para Cap-Haïtien, no Haiti, transportaram apenas 57 deportados, segundo a organização Human Rights First.
Assim, o recorde de prisões revela apenas uma parte da política de deportação. Prender mais pessoas não significa, necessariamente, conseguir removê-las mais rapidamente do território americano.
Fonte: Reuters, 14 de setembro de 2026.


