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LITTLE ROCK, Arkansas — Uma propaganda da governadora republicana Sarah Huckabee Sanders para defender novas exigências de trabalho para beneficiários do Medicaid provocou uma reação incomum: parte das críticas veio de comentaristas conservadores, que questionaram não a política anunciada, mas a escolha do personagem usado para representá-la.
No vídeo, um jovem branco chamado “Brad” aparece jogando videogame, comendo salgadinhos e descansando em um pufe. Sanders surge para defender a ideia de que adultos saudáveis que recebem assistência pública devem trabalhar, estudar ou fazer trabalho voluntário. No final, Brad aparece de terno, empregado.
A mensagem provocou reação de setores da própria direita americana. O comentarista conservador Matt Walsh questionou por que o personagem não era uma mulher negra. Sean Davis, cofundador do site The Federalist, também criticou a escolha de um homem branco para representar alguém que, segundo a propaganda, poderia trabalhar, mas não trabalha.
A discussão, porém, levanta uma questão mais incômoda: qual seria a aparência “correta” desse personagem?
A resposta talvez seja nenhuma em particular. Não existe uma cor de pele que torne a propaganda automaticamente aceitável. Se a intenção é defender uma regra que se aplica independentemente de raça, fazer da raça o elemento visual da mensagem pode acabar desviando a discussão sobre a própria política.
A campanha poderia, por exemplo, apresentar pessoas de diferentes perfis raciais e sociais, mostrar apenas um adulto apto a trabalhar sem transformar sua identidade racial em símbolo ou concentrar a narrativa no comportamento que pretende criticar — a inatividade, em contraste com trabalho, estudo ou treinamento.
Trocar o personagem branco por um personagem negro tampouco resolveria necessariamente o problema. Poderia apenas inverter a controvérsia e reativar um estereótipo historicamente conhecido na política americana: o beneficiário negro como representação da dependência e do abuso dos programas sociais.
Há ainda uma ironia demográfica. Os dados do próprio Arkansas tornam perfeitamente plausível que o personagem seja branco. Cerca de 60% dos beneficiários do ARHOME são brancos, enquanto aproximadamente 18% são negros, segundo dados recentes do Departamento de Serviços Humanos do estado. Portanto, a sugestão de alguns conservadores de que a propaganda deveria mostrar uma pessoa negra não encontra respaldo simplesmente na composição racial do programa.
A questão, então, deixa de ser “qual raça deveria representar o preguiçoso?” e passa a ser outra: por que uma propaganda sobre uma regra de trabalho para o Medicaid precisa transformar alguém em um estereótipo visual do beneficiário que não trabalha?
A controvérsia é particularmente significativa porque a política americana carrega uma longa história de associação entre raça, pobreza e assistência pública.
A expressão “welfare queen”, por exemplo, tornou-se conhecida durante a ascensão política de Ronald Reagan. Em sua campanha presidencial de 1976, Reagan contou a história de uma mulher de Chicago que supostamente fraudava o sistema de assistência usando múltiplos nomes e documentos. A história foi posteriormente considerada exagerada, mas ajudou a consolidar uma imagem política duradoura da beneficiária que supostamente explorava o Estado.
Especialistas citados pela Associated Press afirmam que essa representação adquiriu forte componente racial e de gênero ao longo das décadas, particularmente na associação entre mulheres negras e dependência de programas sociais.
A propaganda de Sanders ocorre, portanto, em um terreno político muito mais antigo do que o atual debate sobre Medicaid. A questão não é apenas quem deve cumprir as novas exigências de trabalho, mas como a sociedade identifica aqueles considerados merecedores ou não de ajuda pública.
A política por trás da propaganda
No Arkansas, Sanders começou em julho a implementar exigências para determinados adultos de 19 a 64 anos inscritos no programa ARHOME. A partir de 1º de janeiro de 2027, os beneficiários sujeitos às regras deverão comprovar pelo menos 80 horas mensais de trabalho, estudo, treinamento profissional ou serviço comunitário, salvo nas situações de isenção previstas.
A mudança faz parte das novas regras federais para o Medicaid estabelecidas pela legislação aprovada em 2025 durante o governo Donald Trump. Os estados deverão implementar requisitos de participação comunitária para determinados beneficiários.
Sanders, que disputa a reeleição neste ano, mantém a defesa da campanha. Seu gerente eleitoral afirmou à Associated Press que o governo não deveria retirar dinheiro de trabalhadores para entregá-lo a pessoas que simplesmente escolhem não trabalhar.
O debate provocado pela propaganda, entretanto, mostra que a discussão sobre assistência pública nos Estados Unidos dificilmente permanece restrita a números, critérios de elegibilidade ou responsabilidade individual. Ela também envolve as imagens que a política escolhe para representar pobreza, trabalho e dependência do Estado.
E talvez seja justamente aí que esteja o aspecto mais revelador da controvérsia: quando diferentes grupos discutem qual raça deveria ocupar o papel do beneficiário que “não quer trabalhar”, todos acabam aceitando, ainda que por razões distintas, a premissa de que esse personagem precisa existir.
A questão mais difícil é saber se uma política pública precisa de um vilão para convencer o eleitor de que sua regra é necessária.
You pay taxes to cover welfare for people who just choose not to work. That’s why I launched a welfare-to-work requirement.
If you’re young, healthy, and get government assistance, you should work, go to school, or volunteer. https://t.co/M83nxNMdry
— Sarah Huckabee Sanders (@SarahHuckabee) September 28, 2026


