JUNOT
Washington, 10 de junho de 2026 – Um duro relatório do Government Accountability Office (GAO) expõe uma gestão caótica e irresponsável no Camp East Montana, o maior centro de detenção de imigrantes dos Estados Unidos, localizado em Fort Bliss, Texas. O documento, divulgado na terça-feira, 09, revela que falhas sistemáticas de administração, combinadas com a pressa da administração Trump em expandir as deportações em massa, criaram condições inseguras que contribuíram diretamente para a morte de três detentos em pouco mais de seis meses — além de um escandaloso desperdício de dezenas de milhões de dólares do contribuinte americano.
Aberto às pressas em agosto do ano passado, antes mesmo de as obras serem concluídas, o campo nunca cumpriu os padrões mínimos de detenção da ICE. O resultado foi um quadro de precariedade chocante: falta de cuidados médicos adequados, condições sanitárias deficientes, falhas graves de segurança e violações sucessivas dos direitos mais básicos dos detidos.
O caso mais grave é o de Geraldo Lunas Campos, cubano de 55 anos, morto em janeiro após ser imobilizado por guardas. Um laudo externo concluiu que a morte foi homicídio por asfixia. O relatório do GAO é contundente: evidências relacionadas ao incidente “desapareceram ou foram destruídas”, comprometendo qualquer investigação séria. A contratada ainda deixou de entregar relatórios obrigatórios sobre o uso de força.
Outro episódio revelador é a morte por suicídio de Victor Manuel Diaz, nicaraguense de 36 anos, em 14 de janeiro. Colocado em uma sala inadequada, sem supervisão constante e sem os painéis de visão solicitados meses antes, Diaz foi abandonado por períodos muito superiores ao permitido. Falhas como essa expõem uma negligência que, segundo especialistas, beira o inaceitável.
Sob forte pressão política para aumentar rapidamente a capacidade de detenção, a ICE entregou um contrato de US$ 1,3 bilhão a uma empresa pequena e sem qualquer experiência no setor: a Acquisition Logistics. A escolha, feita via Exército para contornar burocracia, revelou-se desastrosa.
O desperdício foi monumental:
- Mais de US$ 11,5 milhões pagos por serviços de guardas, alimentação e transporte antes mesmo de haver um único detento no local.
- Pagamentos por refeições para 5 mil pessoas mesmo quando a população carceraria real girava em torno de 1.600 pessoas.
- Ausência de câmeras de segurança, falta de estrutura para deficientes físicos, limpeza semanal (quando deveria ser diária) e triagem inadequada de tuberculose, que resultou em surto da doença.
Em outubro, um detento escapou. Em janeiro, um guarda perdeu uma arma carregada dentro da unidade — que jamais foi encontrada.
O senador democrata Dick Durbin classificou o relatório como “devastador” e afirmou que as condições “chocam a consciência”. Para ele, o episódio revela o lado mais perigoso e desumano da política de deportações em massa da administração Trump.
O Departamento de Homeland Security limitou-se a informar que substituiu a contratada, prometendo “padrões mais elevados”. A resposta soa insuficiente diante da gravidade dos fatos.
O relatório do GAO — órgão técnico e apartidário — confirma o que investigações jornalísticas já apontavam: o Camp East Montana tornou-se um exemplo claro dos riscos de se priorizar velocidade e quantidade sobre segurança, higiene e direitos humanos na implementação de uma política migratória dura.
Em vez de eficiência, o que se viu foi desperdício, negligência e sofrimento desnecessário. O caso levanta uma pergunta incômoda: quantos mais problemas semelhantes ainda estão escondidos atrás da retórica de “deportação em massa”?


