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A declaração de Donald Trump sobre a possibilidade de o Irã “acabar” com cidades americanas, entre elas Los Angeles e San Diego, merece ser lida menos como uma previsão militar e mais como um exemplo da retórica utilizada pelo presidente para justificar os custos de seu confronto com Teerã.
A questão central não é apenas o que Trump disse, mas o que sua afirmação pressupõe. Ao mencionar a possibilidade de cidades americanas serem atingidas, o presidente introduz no debate uma ameaça extrema: a ideia de que a guerra com o Irã pode chegar ao território continental dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, apresenta os efeitos econômicos do conflito — especialmente sobre combustíveis e outros preços — como um custo relativamente pequeno diante da necessidade de preservar a segurança nacional.
Há, porém, uma diferença importante entre uma hipótese de risco e uma capacidade militar comprovada. O Irã possui um amplo arsenal de mísseis e vem desenvolvendo capacidades tecnológicas relevantes, mas isso não significa que tenha, hoje, uma capacidade conhecida de realizar um ataque convencional de longo alcance contra cidades como Los Angeles ou San Diego. A possibilidade mencionada por Trump, portanto, não deve ser automaticamente apresentada como uma ameaça iminente.
É justamente nessa diferença que a declaração ganha dimensão política.
Trump constrói seu argumento a partir de um cenário extremo: se os Estados Unidos não enfrentarem o Irã agora, uma ameaça muito maior poderá surgir no futuro. A lógica é conhecida na política externa americana: aceitar custos econômicos, militares e diplomáticos no presente para impedir um perigo potencialmente muito mais grave adiante.
O problema é que esse tipo de argumento também pode produzir o efeito inverso. Ao evocar a destruição de cidades americanas, Trump transforma uma questão estratégica complexa em uma imagem de forte impacto emocional. A ameaça hipotética passa a ocupar o centro do debate, enquanto ficam em segundo plano perguntas mais difíceis: qual é exatamente a capacidade iraniana? Qual é o objetivo militar americano? Quais são os limites da operação? E qual seria o custo de prolongar o conflito?
Isso não significa que o risco iraniano possa ser simplesmente descartado.
O programa nuclear de Teerã, seu arsenal de mísseis e sua política regional são questões reais de segurança. Mas ameaça potencial, capacidade militar e intenção política não são a mesma coisa.
A declaração de Trump pode, portanto, ser interpretada de duas maneiras. Na leitura mais literal, ele alerta para um risco que considera possível caso o Irã não seja contido. Na leitura política, utiliza o pior cenário imaginável para explicar por que os americanos deveriam aceitar os custos presentes da guerra.
A distinção é importante porque, em uma democracia, justificar uma guerra com base no medo exige mais do que imagens de destruição. Exige demonstrar que o perigo é real, mensurável e suficientemente grave para tornar o custo da guerra aceitável.


