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WASHINGTON – Em discurso marcado pelo tom patriótico e reflexivo durante as celebrações do 4 de Julho no National Mall, o presidente Donald Trump voltou a tocar em um tema recorrente de sua trajetória recente: a percepção de que não recebeu o mesmo tratamento reservado a outros cidadãos americanos diante do sistema judicial. “Embora eu não tenha sido tratado tão bem, não vamos entrar nisso”, disse ele, ao defender os princípios constitucionais de liberdade de expressão, religião e, sobretudo, “igualdade de justiça perante a lei”.
O momento, inserido em uma fala que celebrou a Constituição como “o documento político mais justo já concebido”, não passou despercebido. Trump, que retornou à Casa Branca no ano passado, carregava à época condenação inédita como ex-presidente: 34 acusações de falsificação de registros empresariais no caso dos pagamentos à atriz pornô Stormy Daniels. Foi o primeiro chefe de Estado americano a se tornar réu condenado. Outros processos — interferência eleitoral na Geórgia, documentos classificados e o caso federal de 6 de janeiro — foram arquivados ou suspensos.
A menção discreta de Trump ecoa reclamações antigas de tratamento seletivo. E, de fato, alguns elementos do caso que resultou em sua condenação alimentam o debate sobre padrões desiguais na aplicação da lei. O pagamento a Daniels, destinado a silenciar um suposto caso extraconjugal durante a campanha de 2016, foi enquadrado como fraude eleitoral via falsificação contábil. Críticos apontam que condutas semelhantes — ou mais graves — envolvendo figuras do establishment político raramente resultam em condenações criminais tão rigorosas.
Um paralelo recorrente é o contraste com investigações envolvendo a família Biden. O filho do presidente Joe Biden, Hunter Biden, enfrentou acusações de posse ilegal de arma e sonegação fiscal relacionadas a rendimentos estrangeiros. Apesar de evidências documentadas de negócios nebulosos na Ucrânia e na China, o tratamento judicial foi, para muitos analistas, mais leniente: acordos iniciais que quase resultaram em imunidade, seguidos de um julgamento que não impediu o indulto ou minimização política. Trump e seus aliados argumentam que um sistema verdadeiramente imparcial não permitiria tamanha discrepância.
Outro exemplo citado por defensores da tese de “dois pesos e duas medidas” é o arquivamento ou a morosidade em casos de ex-democratas. Hillary Clinton, por exemplo, utilizou servidor privado de e-mail para assuntos oficiais e apagou dezenas de milhares de mensagens — conduta que, segundo relatórios do FBI, envolveu riscos de segurança nacional. A então candidata não sofreu acusação criminal formal, apesar de críticas duras da própria agência federal. Trump, por sua vez, viu um caso de documentos classificados prosperar até o retorno à presidência.
Trump não se alongou no tema durante o discurso, preferindo celebrar realizações de sua administração — incluindo a defesa do Segundo Emenda — e atacar o que chamou de “câncer” do socialismo democrático. “É preciso cortar rápido”, disse, referindo-se a vitórias recentes de candidatos de esquerda. O evento, parte do “Salute to America”, foi interrompido brevemente por alerta de tempestade severa, mas terminou com fogos de artifício e multidões que lotaram o Mall.
A fala de Trump reforça sua narrativa de vítima de perseguição política — tese que sustentou durante campanha e que agora, de volta ao poder, usa para justificar medidas como o SAVE America Act, voltado à integridade eleitoral. Seus apoiadores veem nos desdobramentos judiciais não apenas erros processuais, mas um padrão perigoso: o uso seletivo do aparato estatal contra adversários. Críticos, por outro lado, argumentam que as evidências contra Trump eram robustas e que nenhuma figura está acima da lei.
O episódio ilustra uma polarização que persiste mesmo após sua reeleição. No dia em que os americanos celebram independência e igualdade, Trump lembrou que, para alguns, a balança da Justiça nem sempre parece equilibrada. O recurso contra a condenação de Nova York segue em curso. O tempo — e os tribunais — dirão se o sistema corrige o que o presidente considera uma injustiça ou se confirma o rigor da lei aplicada a todos.


