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Miami (Flórida), 16 de abril de 2026 — Um grupo de famílias venezuelanas está vivendo um paradoxo dramático nos Estados Unidos. Elas querem obedecer à política de autodeportação incentivada pelo governo de Donald Trump, mas estão presas em um limbo burocrático que as impede de voltar para casa.
Muitos registraram a intenção de deixar o país voluntariamente pelo aplicativo CBP Home, do governo federal americano. O app promete passagem aérea gratuita e até US$ 2.600 (cerca de R$ 14 mil) em auxílio para quem optar pela saída espontânea. No entanto, ao chegarem ao Aeroporto Internacional de Miami (MIA) com as malas e as passagens compradas, as companhias aéreas negam o embarque.
O motivo? Falta de documento essencial: o salvoconducto (ou “safety pass”), uma autorização especial de viagem emitida pelo governo da Venezuela para quem não tem passaporte válido. A maioria desses imigrantes entregou o passaporte às autoridades americanas ao cruzar a fronteira anos atrás. E, desde 2019, a Venezuela não tem consulados ativos nos Estados Unidos por causa da ruptura de relações diplomáticas.
Sem o salvoconducto, as famílias ficam sem status legal nos EUA e sem poder voltar para a Venezuela. Algumas já estão sem moradia e dependem de ajuda de ONGs.
O caso de Yelitza Pérez: símbolo do drama
Uma das histórias mais acompanhadas pela imprensa é a de Yelitza Pérez, venezuelana de 29 anos, mãe de duas meninas (Paola, de 9 anos, e Itchel, de 1 ano). Seu marido foi deportado formalmente. Sem condições de ficar sozinha nos EUA, ela decidiu se autodeportar.
Yelitza se cadastrou no CBP Home, comprou as passagens e foi para o aeroporto. Foi barrada. Passou semanas em Miami, sem dinheiro e sem teto, até conseguir o documento por meio de parentes na Venezuela. Ela e as filhas conseguiram finalmente voltar para casa há poucos dias (meados de abril de 2026), após intervenção de uma organização sem fins lucrativos chamada Hermanos de la Calle, que ofereceu abrigo e apoio.
A CNN (en Español), CBS Miami, Local 10 e El País acompanharam o grupo de perto. “Queremos ir embora, mas não conseguimos. Estamos no limbo”, disse Pérez em entrevistas.
Contexto da crise
– **Política Trump**: Desde o início do segundo mandato, o governo americano intensificou a pressão para que imigrantes irregulares deixem o país voluntariamente. O CBP Home foi lançado exatamente para isso.
– **Comunidade venezuelana**: Miami abriga a maior colônia venezuelana dos EUA (conhecida como “Doralzuela”). Muitos chegaram nos últimos anos buscando asilo ou proteção temporária (TPS), mas o fim dessas proteções e o endurecimento das regras migratórias empurrou vários para a autodeportação.
– **Burocracia venezuelana**: Sem representação consular, os documentos precisam ser solicitados diretamente em Caracas ou por familiares no país. O processo pode levar semanas ou meses.
– **Consequências**: Algumas famílias já estão desabrigadas enquanto esperam. Outras correm risco de serem deportadas à força, o que pode trazer consequências mais graves (como proibição de retorno futuro).
Situação atual
Nem todas as famílias conseguiram sair ainda. Parte do grupo continua em Miami, aguardando o salvoconducto. A ONG Hermanos de la Calle segue ajudando com moradia temporária e orientação.
O governo americano não se pronunciou oficialmente sobre o impasse, mas incentiva a autodeportação como forma “humana e controlada” de reduzir a presença irregular. Do lado venezuelano, a falta de consulados persiste.


