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Boston, 11 de março de 2026 – Uma menina brasileira de 14 anos foi detida por agentes federais de imigração na terça-feira, 10 de março, em um estacionamento na cidade de Marlborough, no estado de Massachusetts, nos Estados Unidos. A ação, realizada por oficiais da Homeland Security Investigations (HSI), uma divisão da Imigração e Alfândega (ICE), parte do Departamento de Segurança Interna (DHS), gerou forte repercussão, com acusações de que a menor estaria sendo usada como “refém” para pressionar familiares. A garota, identificada apenas pelas iniciais B.E.S. em documentos judiciais para preservar sua identidade, permanece sob custódia federal, tendo sido transferida para uma instalação do Office of Refugee Resettlement em Nova York. Seu advogado e uma congressista democrata exigem sua liberação imediata, alegando violações de direitos constitucionais e estatutários para menores em contextos migratórios.
A detenção ocorreu por volta do meio-dia de terça-feira, em um estacionamento próximo a uma igreja presbiteriana em Marlborough, uma cidade de cerca de 40 mil habitantes a oeste de Boston. De acordo com relatos, a menina estava acompanhada de seus dois irmãos mais velhos, ambos cidadãos americanos, e possivelmente amigos, quando foi abordada pelos agentes. Os irmãos, em seus 20 anos, tentaram intervir, mas a garota foi levada para o Departamento de Polícia de Marlborough, onde permaneceu por várias horas em um veículo no estacionamento, sem entrar no prédio, conforme testemunhas e advogados. Posteriormente, ela foi transportada para o Edifício Federal John F. Kennedy, em Boston, e, por volta da meia-noite, transferida para fora do estado. Seu paradeiro exato foi inicialmente desconhecido, mas confirmado como uma instalação em Nova York gerenciada pelo Escritório de Reassentamento de Refugiados.
B.E.S., natural do Brasil, entrou nos Estados Unidos em 2019 com um visto de visitante e reside no país desde então, vivendo com seus irmãos em Marlborough. Sua mãe faleceu, e o pai não faz parte de sua vida cotidiana, embora haja indícios de que a detenção possa estar ligada a uma tentativa de localizar ou coagir o pai, possivelmente sujeito a procedimentos de deportação. O advogado Andrew Lattarulo, da firma Georges Cote Law LLP, que representa a menor, afirmou que o ICE não forneceu qualquer documentação justificando a prisão e que não há acusações criminais contra ela. “Se isso fosse uma acusação estadual, por que a polícia não foi envolvida? Por que o Departamento de Crianças e Famílias (DCF) não foi chamado? Por que o procedimento padrão é ‘prender essa criança e depois transferi-la para fora do estado’?”, questionou Lattarulo em entrevista. Ele relatou condições precárias durante a detenção inicial: a menina teve seu celular confiscado e ficou quase 20 horas sem sono adequado ou refeições, descrevendo a situação como “insana”.
Lattarulo, auxiliado pela colega Gabriela Cerretani, protocolou um pedido de habeas corpus no Tribunal Federal de Massachusetts ainda na terça-feira, alegando que a custódia viola limites legais para a detenção de menores em casos de imigração. O documento judicial afirma: “Agentes federais tomaram essa criança de 14 anos sob custódia e continuam a detê-la em um prédio federal sem qualquer indício de que o governo cumpriu os limites estatutários e constitucionais que regem a detenção de menores em custódia imigratória”.
A congressista Lori Trahan, democrata representante do 3º Distrito de Massachusetts (que inclui Marlborough), emitiu um comunicado exigindo a liberação imediata da menina, destacando que ela não possui histórico criminal. “Como mãe de filhas de 15 e 11 anos, estou furiosa. Isso não é aplicação da lei de imigração. É o direcionamento deliberado contra uma criança para infligir o máximo de dor à sua família”, declarou Trahan. Ela acusou o DHS de adotar uma política de usar crianças como “isca” para deter e deportar familiares, instando as autoridades a focarem em criminosos violentos em vez de menores vulneráveis. Trahan defendeu que a garota seja devolvida à família e retorne à escola ainda esta semana. O escritório da congressista Ayanna Pressley, também democrata pelo 7º Distrito, foi notificado do caso, mas não emitiu comentários imediatos.
O caso ocorre em um contexto de intensificação das ações de imigração em Massachusetts, estado com uma significativa comunidade brasileira. Testemunhas, como o advogado Van Celedon, que presenciou a cena, relataram agentes em veículos com vidros escurecidos agindo de forma apressada, recusando-se a fornecer detalhes. A família da menina, incluindo tios e tias descritos como “abalados”, expressou preocupação com o bem-estar dela. O Distrito Escolar Público de Marlborough e o Departamento de Polícia local não responderam a pedidos de comentário, assim como o DHS e o ICE.
Especialistas em imigração consultados por veículos locais apontam que detenções de menores sem status regular, mesmo sem crimes, são comuns em casos de overstays (permanência além do visto), mas criticam o tratamento dispensado a vulneráveis como B.E.S., especialmente sem envolvimento de serviços de proteção infantil. O episódio reacende debates sobre políticas migratórias sob a administração atual, com ativistas defendendo reformas para priorizar famílias mistas (com membros cidadãos e não cidadãos). Até o momento, não há indícios de que a detenção resulte em deportação imediata, mas o habeas corpus busca impedir transferências adicionais e garantir direitos básicos.


