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Boston, 23 de Março de 2026— No último episódio da série The Pitt, da HBO, um drama médico focado no heroísmo e no esgotamento da linha de frente hospitalar, que transforma um dia comum em uma maratona emocional, dois agentes federais do ICE entram no pronto-socorro de um hospital fictício em Pittsburgh trazendo uma mulher algemada e ferida no ombro. Ela havia se machucado ao tentar fugir durante uma operação de fiscalização em um restaurante. Os agentes explicam o ocorrido de forma sucinta: “uma queda feia”, enquanto a paciente, visivelmente abalada, implora para ligar para a filha — pedido negado até que o processamento seja concluído. A tensão surge imediata. Equipe médica e pacientes começam a se retirar, temerosos com a presença dos agentes. Um deles permanece mascarado o tempo todo, sem rosto, quase sem palavras. O Dr. Michael Robinavitch (Noah Wyle) sai em defesa do direito universal ao atendimento, gritando que todos merecem cuidado, independentemente de documentos. No clímax, a enfermeira Jessie intervém ao perceber uma suposta agressão e acaba algemada e levada à força, enquanto um estudante de medicina registra tudo em vídeo.
O showrunner R. Scott Gemmill garante que o roteiro, escrito no ano passado, buscou neutralidade: mostrar os fatos, sem pregar. “Queríamos apresentar a situação como ela é e deixar o público decidir”, disse ele ao The Hollywood Reporter. Mas a realidade, infelizmente, acelerou. O episódio chegou às telas semanas após a morte trágica da enfermeira de UTI Alex Pretti, baleada por agentes federais em Minneapolis durante um confronto — um caso que chocou a comunidade de saúde e reacendeu debates sobre o uso da força em operações de imigração.
Aqui começa o desconforto que The Pitt talvez não tenha pretendido, mas que escancara. Os agentes aparecem como sombras sem nome, sem humanidade, símbolos de medo que esvaziam o hospital. A paciente, uma mãe desesperada, é reduzida a vítima muda. A equipe médica, heróis diários que salvam vidas sem perguntar status migratório, vira resistência moral contra uma força opressora. O ICE, que em teoria existe para cumprir leis federais, é mostrado como intruso que perturba o juramento hipocrático, que espalha pânico em quem só quer curar.
É sutil, quase didático. Não há vilania explícita, mas o enquadramento fala alto: de um lado, empatia, compaixão, o caos humano do pronto-socorro; do outro, máscaras, algemas, negação de um simples telefonema. O público sente o peso. Muitos saíram do episódio gritando “F— ICE!” nas redes, outros aplaudindo a “coragem” de não fazer política abertamente. Mas quando o ICE vira o monstro que afugenta pacientes e prende enfermeiros que protegem os vulneráveis, a neutralidade prometida vira outra coisa.
The Pitt acerta ao retratar o medo real que a presença de agentes federais gera em hospitais — medo que afasta quem mais precisa de ajuda. Acerta ao mostrar médicos e enfermeiros no limite, defendendo o princípio de que uma emergência não pergunta passaporte. Mas escorrega ao pintar o ICE como o vilão conveniente, quase caricatural, enquanto as pessoas que eles detêm aparecem apenas como vítimas inocentes, sem contexto maior. É uma crítica velada, mas afiada: o sistema que separa mães de filhas, que invade espaços de cura, que transforma atendimento em suspeita.
Talvez o showrunner tenha razão: o roteiro veio antes das tensões atuais se agravarem. Mas a ficção, quando chega na hora errada, não é mais só ficção. Ela vira espelho — e, às vezes, martelo. E nesse episódio, o martelo bateu forte no ICE, enquanto o público aplaude os médicos que, afinal, só fazem o que qualquer ser humano decente faria: cuidar, sem perguntar de onde a dor veio.
O problema não é mostrar o conflito. É deixar que o conflito escolha lados tão claramente, disfarçado de “deixar o público decidir”. Porque, no fundo, o episodio do the Pitt já decidiu. E escolheu um lado— mesmo que, para isso, tenha que transformar quem aplica a lei em sombra sem rosto.


