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Boston, 29 de março de 2026 – Milhares de pessoas lotaram o Boston Common no sábado (28) para a terceira edição nacional das manifestações “No Kings”, um protesto coordenado contra as políticas do segundo mandato de Donald Trump. Em Massachusetts, o evento principal atraiu cerca de 180 mil participantes, segundo estimativas dos organizadores, com discursos de figuras como a governadora Maura Healey, os senadores Elizabeth Warren e Ed Markey, a deputada Ayanna Pressley e uma apresentação da banda Dropkick Murphys.
O estado registrou mais de 160 eventos simultâneos, de cidades grandes a pequenas comunidades, superando os números das rodadas anteriores (junho e outubro de 2025). A mobilização foi descrita como uma das maiores do país, com foco em temas como deportações em massa via ICE, a guerra no Irã, o custo de vida e o que os organizadores chamam de “autoritarismo” da administração Trump.
Massachusetts: de Boston às cidades com forte presença imigrante
O epicentro foi o Boston Common, onde a multidão se concentrou a partir do meio-dia, com cartazes, fantasias e cânticos contra o que os manifestantes definem como “reis sem coroa”. Mas a força do movimento se espalhou por todo o estado.
Em Lowell, uma das cidades com maior concentração de imigrantes no estado — especialmente a segunda maior comunidade cambojana dos Estados Unidos, além de populações significativas de vietnamitas, laosianos, porto-riquenhos e outros grupos latinos e asiáticos —, centenas de pessoas lotaram o Kerouac Park, no centro da cidade, entre meio-dia e 14h30.
Manifestantes acenavam placas e bandeiras para motoristas que passavam, enquanto oradores denunciavam as políticas de imigração do governo federal, a guerra no Irã, a desigualdade econômica acelerada e a falta de transparência sobre os arquivos Epstein. A senadora estadual Vanna Howard, a primeira senadora cambojano-americana do país, que chegou aos EUA aos 11 anos fugindo do Khmer Vermelho, foi uma das principais vozes. Ela ergueu o próprio passaporte diante da multidão e declarou que, pela primeira vez desde que imigrou, sente a necessidade de carregá-lo constantemente para provar sua cidadania, justamente por não ser branca. Howard criticou duramente as ações do ICE, afirmando que agentes federais estariam “agarrando crianças, nossos vizinhos, documentados e indocumentados alike, e ninguém diz nada”.
Outros oradores incluíram a representante Tara Hong, o diretor executivo da MVP Julio Mejia e o tenente-coronel reformado Dan Ward. A mensagem central foi de resistência: “Todo dia vamos proteger nossos vizinhos e amigos. Vamos enfrentar esta administração todos os dias, porque temos Estado de Direito, devido processo legal e o poder do povo”, disse Howard, que encerrou com o refrão “No kings, no throne, no dictatorship since 1776”, recebido com aplausos. O ato em Lowell foi pacífico e comunitário, refletindo o perfil diversificado da cidade, que historicamente acolheu ondas de imigrantes do Sudeste Asiático após o genocídio cambojano.
Em New Bedford (região SouthCoast), conhecida por sua grande comunidade imigrante de origem portuguesa, cabo-verdiana e brasileira, cerca de 1.700 pessoas participaram de múltiplas ações: passeata sobre a passarela da Rota 18, concentração no Buttonwood Park e marcha até a prefeitura. A imigração dominou os discursos. “Devolva nosso povo!”, gritavam manifestantes, em referência às deportações. Outros atos ocorreram em Dartmouth, Fall River e Attleboro, todas áreas com forte presença de populações estrangeiras.
Além disso, protestos ocorreram em Framingham (hub da comunidade brasileira), Brockton (forte presença haitiana e cabo-verdiana), Methuen, Worcester, Pittsfield, Northampton, Lexington, Salem, Waltham e dezenas de outras cidades. Mesmo em municípios menores, como Amesbury, Amherst e Canton, centenas saíram às ruas. A maioria dos atos foi pacífica, com mesas de informação, música e discursos de líderes locais.
Milhões nas ruas, tensões pontuais
Os organizadores (coalizão formada por Indivisible, MoveOn, 50501 Movement e sindicatos) estimam pelo menos 8 milhões de participantes em mais de 3.300 eventos nos 50 estados – o maior dia de protesto da história recente dos EUA, superando as edições anteriores (5 milhões em junho/2025 e 7 milhões em outubro/2025).
Os maiores atos ocorreram em:
- Minnesota (St. Paul) – evento principal do país, com Bruce Springsteen no palco, governador Tim Walz, senador Bernie Sanders e deputada Ilhan Omar. Milhares lotaram o local em clima festivo e de resistência.
- Nova York, Chicago, Los Angeles, Washington D.C. e Filadélfia – marchas massivas e pacíficas, com foco em direitos imigratórios e oposição à guerra.
A maioria dos relatos de imprensa descreve os protestos como pacíficos e ordeiros, com ênfase em comunidades pequenas e subúrbios – dois terços dos atos ocorreram fora das grandes metrópoles.
Conflitos e atos de violência isolados:
- Portland, Oregon: Após o ato principal, manifestantes mascarados se dirigiram a uma instalação do ICE. O protesto escalou: vídeos mostram agressores derrubando agentes federais. A polícia local registrou três prisões por agressão e vandalismo. Foi o incidente mais grave do dia.
- Memphis, Tennessee: O protesto no Robert R. Church Park começou pacífico, mas terminou com detenções (pelo menos duas confirmadas, possivelmente mais).
Manifestantes acusaram a polícia de brutalidade; agentes usaram spray de pimenta e prenderam um “marshal” de segurança do evento. Houve relatos conflitantes sobre obstrução de via e resistência. Uma arma foi encontrada com um dos detidos, segundo a polícia.
Em Honolulu (Havaí), uma ameaça de bomba interrompeu o ato, mas sem violência. Fora esses casos pontuais, não há registros de confrontos generalizados com contramanifestantes ou grandes distúrbios.
O movimento “No Kings” – que já mobilizou milhões em 2025 – ganha força a cada edição. Organizado de forma descentralizada, ele transforma o descontentamento com políticas de imigração, guerra e economia em ação de rua. Em Massachusetts, o estado mais ativo depois da Califórnia, a mensagem foi clara: “Na América, não aceitamos reis”.


